maio 17, 2004

Nús (e com gumes)

Os Mão Morta editaram "Nús", o seu último álbum. Adolfo Luxúria Canibal reconhece, no seu manifesto que li no site oficial da banda, que o poema "Uivo" ("Howl") de Allen Ginsberg foi o "ponto de partida, quer para a composição quer para as letras".
Não resisto a deixar um excerto de "Gumes", o tema que abre o disco. A letra reporta ao quarto momento (ou "quadro sobreposto", como refere Adolfo).

Estou farto disto
Não posso mais
Todos os dias
Passam iguais
Como um fantasma
Com escorbuto
Corro a cidade na busca de um xuto
Speed ou heroa
Coca ou morfina
Tudo me serve
Como vacina
Desde que traga a santa narcotina
Furam-me os ossos
Caem-me os dentes
Reflicto ao espelho sinais indigentes
Mas o pavor
É da ressaca e da dor

Já desvairado
Com tanta volta
Sempre sem ver
Poda ou recolta
Fico em suores
Vem-me a carência
Sinto-lhe a mão sem qualquer clemência
Pica-me as pernas
Prende-me as costas
Fere-me os tímpanos
Em dores expostas
No rito ansioso do coçar das crostas
Não posso mais
Tudo o que eu quero
É ver-me livre deste ruim desespero
Um caldo tal
Que seja um ponto final

Publicado por Tiago Peregrino em 02:45 PM | Comentários (1)