maio 06, 2006

Pessimismos

Alguém apareceu neste blog através de uma busca ao "efeito da heroína nos olhos". Há consequências físicas óbvias. A diminuição da pupila ou a cor da íris degenerada em tons mortiços. Mas para lá do literal, os opiáceos obrigaram os meus olhos a abandonarem-me para sempre. Passei a "ver" as almas das pessoas. E a visão está longe de ser bonita...
Publicado por Tiago Peregrino em 02:56 AM | Comentários (0)

março 20, 2006

Estereografia

Desde que deixei de consumir substâncias que induzem à alucinação, deixei também de conseguir ver estereogramas. A primeira vez que consegui tal proeza (muito difícil para um realista como eu) foi precisamente numa trip de cristais vermelhos, cujo nome artístico já não recordo, mas cujas consequências estão ainda hoje tão vivas nos arquivos bolorentos da minha memória como a primeira vez que fiz sexo. As portas para as diferentes realidades que o ácido oferecia desvanecem-se com o passar do tempo. Ou esperam por mim noutra qualquer extremidade dimensional.
Publicado por Tiago Peregrino em 01:57 PM | Comentários (1)

junho 06, 2005

O Ciúme da Ressaca

Sinto-a como um desconcertante vulto celeste que giza uma rota gravitacional em redor do meu corpo. Como uma ameaça constante à minha integridade emocional. Um enjôo matinal que rasga as entranhas como uma paixão adolescente. Sinto-a ali, perfeita, irracional, infiel, pronta a comprimir a minha alma como um pedaço de papel esmagado. Uma brincadeira de crianças. Um tremendo grito de revolta que se apodera de mim com a força de um mundo em queda livre. Vejo-a com outro, em lisonjeira cavaqueira, numa sedução que fere mais que todas as lágrimas que já derramei e as que verterei no futuro. Ah! Se não fosses a minha Heroína, matava-te só para mim!

Publicado por Tiago Peregrino em 10:11 PM | Comentários (0)

junho 03, 2005

Queimado

Sou guiado por impulsos eléctricos. Eu sei. Todos sabem. Percorrem-nos o circuito do sistema nervoso como um gigantesco quadro de alta tensão que fornece milhares de Watts a um grande país. O problema é que nós não somos apenas corrente. Alterna ou contínua. As sinusoidais do osciloscópio servem de interpretação à alma? Os implantes neuronais estimulam o acto X, mas não terão consequências no acto Y? Só o sujeito em questão o saberá. Mas sou guiado por impulsos eléctricos. E actualmente receio que estou em curto-circuito.

Publicado por Tiago Peregrino em 03:46 AM | Comentários (1)

maio 23, 2005

No motel da rua Esquerda

Com uma clara e inocente satisfação, soltei um esgar de bizarria. Suzy, boneca de porcelana branca, puta de profissão, vendia também pensamentos. Nada de citações de fulano ou sicrano. Pensamentos genuínos, dos que só ela fora instruída no decurso da sua vida cheia de episódios lacónicos. Senti-os trespassarem as almofadas enxovalhadas entre os nossos corpos. Rumores que saíam da sua boca proibida, que emanavam do suor que lhe escorria pelo ventre, misturado com o perfume barato e exageradamente doce.
O nosso ninho, no meio daqueles lençóis brancos do motel da rua Esquerda, transformara-se num palco de improvisação, uma stand-up comedy da vida real, ou uma jam session de lamentações e querelas aninhadas no mais puro caos. Sempre que Suzy sorria era de sarcasmo, não de prazer ou felicidade. Comecei a questionar o meu saber, aquilo por que alguns investiam em mim como futuro senhor engenheiro doutor das doutas leis dogmáticas.
Depois de algumas lições paguei os préstimos com bonificação, deixei-a sozinha no quarto, e desci as escadas com direcção ao bar de traços art-déco falaciosos. Com dois copos de Jack, ouvi um fantasma ao ouvido que me preconizava a viver com celeridade, não a pensar.

Publicado por Tiago Peregrino em 11:25 PM | Comentários (0)

maio 03, 2005

Doutor

Nos meus dias de judiaria e chulice descarada, conheci um fotógrafo de feições animalescas proveniente de Samoa. Os velhos Ray-Ban de lentes castanhas escurecidas envolviam aquela personagem numa invulgar auréola kitsch. Nunca em tempo algum cumprimentara um colega de profissão colocado dentro de umas bermudas tamanho XXXL, de camisa havaiana desfraldada e demasiado curta, onde se vislumbrava por entre uma imensidão de pelos púbicos uma impressionante cúpula de gordura, saliente e flácida, entre o umbigo e a cintura descaída. Estávamos em pleno inverno.
O Doutor (assim o chamavam pela sua infinita sabedoria na nobre arte de consumir substâncias de duvidosa legalidade) seria durante os próximos dias o meu assistente em Macau, na altura ainda sob protectorado luso. O nosso objectivo era acompanhar com a máxima seriedade e profissionalismo o Grande Prémio de Macau, uma das mais emblemáticas corridas do continente asiático. Para tal, a intenção dos nossos empregadores, um pasquim do norte do país, era infiltrar pelo menos um de nós no mundo de faunos e divas plastificadas que se pavoneavam na grelha de partida. Mas o Doutor, de tão douto que era nestas coisas, aconselhou-me a manter uma distância segura entre o frenesim das boxes e a sala de jornalistas creditados. Foi então que decidimos por comum acordo abastecer aquela empreitada de ácidos, óleos de haxixe marroquino, sementes de maconha para aguçar o neurónio da desconfiança, e umas garrafinhas de "poppers", o fantástico líquido vaporoso que nos eleva aos píncaros da irracionalidade, além de manter o ânus aberto a experiências sexuais molestas.
Na época sentia uma forte atracção por fumar cigarros com uma boquilha, mas o Doutor achava esse processo uma intromissão na função dos fumos que supostamente deveriam chegar impolutos ao cerne dos pulmões. Depressa cheguei à conclusão que o homem não batia bem da cabeça. Mas as suas dissertações sobre a presença da mafia chinesa na grelha de partida do Grande Prémio de Macau revelavam-se pertinentes, especialmente depois de coincidirmos "por acaso" com Serafina das Pontes, a mulher mais abjecta do mundo jornalístico. O seu olhar era fortemente delatório. E a maconha não ajudou a aliviar o sentimento de escuta permanente que sentia nos zumbidos que me acossavam os tímpanos. Permanente. Como se uma pequena engenhoca me tivesse sido secretamente incrustada antes de partir de Lisboa.
Quando acordei no quarto de hotel era notória a actividade que ali se processara para manter afastados estes receios. A água inundava o piso, a porta era violentamente batida por um gerente enraivecido, e nas paredes uma mensagem escrita a sangue pelo Doutor Samoano: "apanhei o avião das cinco para Madagáscar. Li algures que precisam de um advogado. Espero instruções da prefeitura de Foz do Iguaçu. Até breve."
Nunca mais o vi.

Em memória e reverente dedicação ao trabalho de Hunter S. Thompson (que se suicidou a 20 de Fevereiro de 2005, após anos de proeminente Gonzo Journalism)
Publicado por Tiago Peregrino em 02:32 PM | Comentários (3)

maio 02, 2005

Drifting...

Ainda estou vivo... este blog regressa dentro de momentos.

Publicado por Tiago Peregrino em 08:31 PM | Comentários (0)

setembro 20, 2004

Movimento Contra-cultura

Madame Drogba bem tentou. Depois de degustar com sofreguidão o meu sexo, disponibilizou-se a todas as intempéries de uma mente como a minha. Desequilibrada. Sórdida. Sádica. De pernas apontadas ao céu, abertas em quase cento e oitenta graus e apoiadas nos meus braços, madame Drogba gemia, contorcia-se, requisitava com esgares maliciosos mais injecções genitais. Senhora da sua madureza, pude observar um após um os mais infames truques para levar um homem ao êxtase. Mordiscava aqui e ali. Sussurrava para logo a seguir ganir, desamparada. Molhava os dedos para depois entalar os seus largos mamilos, como que anunciando a época de acasalamento.
Madame Drogba fez tudo isso e muito mais. Mas é cruel pedir-se a alguém que ejacule sob o efeito de heroína. É um movimento contra-cultura.

Publicado por Tiago Peregrino em 07:14 PM | Comentários (0)

junho 26, 2004

Na Garagem da Iolanda

As suas pernas abraçam a minha cintura, sufocando-me como uma anaconda em processo alimentar. Parecem tenazes viris, apêndices primatas de um corpo longe do selvagem, mas tampouco de mulher urbana e formada. Seguro-a de pé, pelas nádegas, lançando-a num movimento próximo ao do cavalgar. Galgamos metros e metros em doce corrupio. Um pião tresloucado em meio a esta turba de chulés, homens, suores, mulheres, crianças, meninas, pessoas disfarçadas de flanela aos quadrados e gangas corroídas pelo tempo e pela inocência de quem não sabe o que faz. Os seus cabelos louros desfraldam ao som das guitarras de Soundgarden e Pearl Jam. As vozes de Eddie Vedder e Chris Cornell soam em tom de magnanimidade, poetas da depressão beat, contestatários da nossa condição humana, do fel quotidiano.
Por um momento ela pára os seus violentos movimentos abdominais, levanta o tronco como um pavão cioso, a cabeça bem acima da minha, os longos cabelos molhados inclinados para a frente agarram-se à minha fronte, os seus seios robustos e roliços ameaçam sufocar-me. E por um momento beijamo-nos selvaticamente, o seu sal e o meu como petiscos na ponta das nossas línguas secas de cerveja. E depois regressamos ao carrocel inebriado, perdidos na multidão e no fumo. Por momentos julguei ver Kurt Cobain encostado ao balcão do bar improvisado, também ele perdido num copo de whiskey.

Publicado por Tiago Peregrino em 09:34 PM | Comentários (0)

abril 09, 2004

Interlúdio do autor

Actualmente estou em fase simbiótica com uma preguiça que encontrei presa nas redes contrabandistas de Bogotá. Ainda estou a tentar perceber que benefícios lhe posso propor...

Publicado por Tiago Peregrino em 11:36 AM | Comentários (0)

janeiro 30, 2004

ecstasy

Saí relutante da festa. Ela beijava-me aos tropeções, mordiscava-me o lóbulo com descuido, agarrava-me pelas ancas, enganchava-me entre os seus braços preguiçosos. A sua pele, que há horas eu sentira suave e especialmente cheirosa, estava imersa em suor. A minúscula t-shirt que trazia colava-se àquele corpo pueril. O umbigo destacava-se, tatuado e com piercing, símbolo tribalista de evocação matriarcal.
Cá fora o frio devia ser implacável, a acreditar naquelas expressões de desalento nos mais madrugadores, embutidos em mil peças de roupa de lã e sobretudos.
Ela insistiu em beber um chá de limão no café junto à praça de árvores nuas, cujas grandes folhas moribundas cobriam a calçada como um enorme estrado de madeira. Os primeiros raios de sol invadiram por entre as fachadas dos prédios arte nova degradados. Colocámos os óculos de sol, quais criaturas noctívagas e vampíricas.
Do seu cabelo escorria uma madeixa comprida afunilada em missangas arco-íris. Ela falava e falava e falava. E eu ouvia e ouvia e ouvia, absorto nos seus lábios pequenos, abrilhantados e com cheiro a baunilha. E assim ficámos durante meia vida ou mais.

Publicado por Tiago Peregrino em 05:06 PM | Comentários (4)

dezembro 15, 2003

Puta de televisão!

Zap!... um canal emite uma série vivida na época renascentista. Perpassa um leve odor a cera que derrete, velas acesas em braços de polvo de pujantes candelabros. Uma menina aos folhos regurgita uma peça num cravo. No outro canto do vasto salão recita-se poesia desalmadamente.

Zap!... a meio de um filme do princípio do século XX discute-se apaixonadamente os versos de Whitman. O ruído das folhas dos livros é avassalador. Arrumados à lareira, dois homens bebericam balões de brandy e criam túneis de fumo com os seus charutos molhados de tantos beijos chupados.
Zap!... numa terlúlia chora-se o passar dos anos sem pudor, como se o passado deles tivesse de pesar tanto quanto o nosso. Os pormenores lembrados são fúteis e patéticos. O público ri de pena. Ou com vergonha.
Zap!... uma mulher sentada num palco acusa outra, assentada a seu lado, de a ter traído com o marido.
Zap!... um homem bronzeado em tronco nú ameaça outro de "porrada" e chama alguém de "xará".
Zap!... querem me vender um aparelho que emite choques para emagrecer.
Clique...
Houve aquele tempo em que a palavra escrita chegava mesmo às pessoas. Em que estes feixes hertzianos não intoxicavam o cérebro com bestiais embolias. Puta de televisão!

Publicado por Tiago Peregrino em 12:34 AM | Comentários (1)

outubro 14, 2003

A Acidez do Pensamento

No piso superior da vivenda senhorial, há muitos anos restaurada, existe um balcão gigantesco. Uma montra de rara beleza paisagística. Sentado na varanda granítica suportada por dois pilares paquidermes, uma aragem acaricia-me o rosto. Mantenho os olhos fechados e deixo a cabeça descair sobre a nuca. Consigo ouvir tudo. Os pulmões recém bombeados. O pipilar de dois pardais em disputa por uma semente, na horta, a uns duzentos metros. Os gorgolões de água expelidos pelo sistema de rega automática. A barroca cheia da nascente que vive nos montes, a poucos quilómetros. Uma nuvem passageira empurrada com doçura. O leve sibilo do vento que irrompe na quelha, onde se separam o gigantesco palheiro, de paredes cinzentas, e o silo, mais alto que a torre da igreja na aldeia. A ladainha da gata preta que manifesta o cio aos demais felinos das redondezas. E de repente tudo se cala.
Sobra apenas o tímido pestanejar que me abre as portas para o azul que ilumina o céu de Verão como um oceano. Quando lentamente regresso a cabeça à posição normal sinto uma leve tontura, e por segundos, talvez micro-segundos, uma sensação agoniante de pânico brutal. Estremeço sem frio, contraio os músculos do peito, abandono o corpo por instantes enquanto procuro um refúgio interior. Mas a droga dita agora as regras. E busca e rebusca aquele pobre bicho que há minutos atrás eu chamaria de alma. Um animal selvagem enjaulado. Um instinto que suplica liberdade. Faço-lhe a vontade e sigo um carreiro. Um entre muitos. Milhares. Milhões. Ou mais. Alguém sabe o significado da palavra "arar"? Julgo passar por uma placa com essa inscrição. Ou seria "rara"? A placa era de cristal ou vidro ou plástico ou alumínio ou madeira. Confuso, eu? Não. Há uma bússola que direcciona isto tudo para um sítio algures entre aquele prisma e aquela frase. Só que o prisma é de cristal ou vidro ou plástico ou alumínio ou madeira. Então escolho a frase. A frase é esta. Esta é a frase. Há aqui uma conjugação de palavras que forma uma frase, sentença que provavelmente levará a um raciocínio. Mas a racionalidade é muito difícil porque há prismas aqui que não deixam. O carreiro divide-se em quarenta e dois, todos num único cruzamento. Desses quarenta e dois alguns derivam para caminhos, canadas, estradas, pistas de aterragem. Faixas e faixas de tráfego intenso mas progressão contínua e ritmada. Carros e aviões e barcos e bicicletas. "Gostas de mulheres?", perguntaram-lhe um dia, ao que ele respondeu, "Não. Prefiro bicicletas". Deve ser do mecanismo, do selim, do pedal, ou daqueles maravilhosos prismas vermelhos que enchem os reflectores de jactos de luzes incandescentes. "Ring! Ring!", e ao longe ouve-se o estraçalhar de pequenas pedras e grãos de areia de encontro às rodas da bicicleta que se aproxima. Quem será? Debruço-me sobre o parapeito com o intuito de investigar, mas o chão lá de baixo chegou aqui acima. Prefiro não sair de onde estou. Descair a cabeça sobre a nuca, fechar os olhos, ouvir tudo, assim me deixe este maldito resquício de ácido.
Publicado por Tiago Peregrino em 05:18 AM | Comentários (0)

setembro 25, 2003

45677319/GJKL

45677319/GJKL era um neurónio de extrema utilidade. Por ele passaram diversos milhões de impulsos. Sentimentos, estímulos motores, alguns tão importantes que muitas vezes debelaram e obrigaram à reconstrução de toda a sinapse do sistema central. A polícia do pensamento ainda não conseguiu descobrir como é possível que uma célula tão importante tenha desaparecido em condições tão misteriosas.

A última transmissão registada do 45677319/GJKL procedeu do seu canal de serotonina, também desaparecido. Um autêntico enigma. Há quem afirme que a um neurónio tão novo estavam a ser pesadas demasiadas responsabilidades. Desde que o sistema central passou a dedicar uma larga percentagem do seu labor às mudanças de humor, o 45677319/GJKL nunca mais seria o mesmo. Como todos os seus colegas, mantinha um nome, uma identidade que lhe fora atribuída por ocasião do seu nascimento. Recentemente o seu apontador neurológico para esse nome desaparecera e todos deixaram de saber o seu apelido. Ninguém sabe bem quando isto se passou. Essa informação ficou retida nas regiões de memória mais longínquas. Foi então que o registo 45677319/GJKL passou a ser a única maneira de o reconhecermos. Mas o mais estranho é que do seu axónio nunca foi enxerido qualquer pedido de acesso aos arquivos mortos. Ou seja, temos aqui o caso de um neurónio sem necessidade de se identificar.
Aparentemente vivia "feliz" assim. Satisfeito (?). Agora não sabemos o que aconteceu. Evaporou-se. E com ele ramificações que determinavam certas respostas do sistema. Algumas eram "vitais para o normal funcionamento da nossa entidade uníssona" (palavras do sistema).
Aquilo que sei é que desde essa altura passei a emitir impulsos de rotina monótonos e sem aparente correlação entre os nossos pares. Há quem diga que o sistema ficou corrompido. Eu prefiro defini-lo como "contente".

Publicado por Tiago Peregrino em 07:27 PM | Comentários (0)

julho 16, 2003

Intruso

Retirei o braço da janela partida. Uma pequena e fina ponta de vidro rasga-me o braço. Mas nada sinto. Nada.

Salto a ventana sem provocar fragor com os pés nos estilhaços cortantes e pequenos, espalhados pelo chão de tijoleira da cozinha.
Na gaveta encontro uma faca, no armário uma lanterna. Sinto um espasmo e vergo o corpo arqueado. Os suores frios simulam uma estação do ano a que o organismo não sabe responder.
Transponho um pequeno corredor, uma arrecadação, uma sala pobre, outra mais equipada, e chego ao quarto.
Há um armário colado à parede, branco, largo, com um enorme espelho no topo, em madeira esculpida, diria Vitoriano.
Na cama dois seres bombeiam ar por entre as cobertas. Ignoro-os.
Começo pelas gavetas, uma a uma. Roupa interior, lenços, papéis e uma chave.
No tampo do armário está uma pequena caixa chinesa trancada. A chave abre-a, e revela jóias, brincos e colares.
Do bolso esquerdo retiro uma bolsa de veludo lilás escuro. Vão os brincos, que parecem valiosos, este colar nem por isso, mas nunca se sabe, aquele talvez, e um gemido.
Estático, agarro com todas as poucas forças que tenho a faca. Raios partam se é hoje que vou ter de matar alguém!

Publicado por Tiago Peregrino em 06:08 PM | Comentários (0)

julho 08, 2003

Afterhours

Sentado na base do paredão degradado, vislumbro através da névoa matinal, muito ao longe, o cume da serra de Sintra. O mar mostra alguns sinais de enfado. Eu também. Porque a noite despede-se com os corpos apáticos das pessoas que abandonam as suas casas para começar mais uma manhã de trabalho. Por trás de mim ouço os grunhidos dos motores algo afónicos com a humidade, uma buzinada aqui e ali, passos apressados, o rugido de um autocarro de cinco em cinco minutos.
Abro a pequena mochila, retiro o walkman e uma cassete com Leftfield. Play. Ganho coragem e começo a caminhar rumo à ponta do paredão, que trava uma discussão com as ondas do mar. À medida que me aproximo apercebo-me das vagas rasteiras de oceano que desmaiam no areal a meu lado. Não é espuma. São milhares de pequenos afoitos coelhos brancos que tentam chegar a terra, e que pouco a pouco desaparecem por entre os milhões de partículas arenosas.
Dou por mim estático, assombrado perante tal revelação.Desde então que os pequenos animais são companhia habitual em qualquer praia do mundo.

Publicado por Tiago Peregrino em 04:39 PM | Comentários (0)

julho 06, 2003

Alucina

A terra estremece com impaciência. Os sulcos que se abrem, desde a planície até ao monte mais distante e alto, são veias por ondem corre o sangue infernal do planeta. Tudo está queimado, em brasa, fumegante, com um forte odor a enxofre. Napalm não poderia ser pior.
Um carro com quatro pessoas aproxima-se, descapotável, comprido e velho, como nos filmes "pela estrada fora" americanos. Passa por mim a alta velocidade, mas consigo identificá-los. São os Pink Floyd. Tal como os vi ontem na fotografia de uma revista velha e usada em casa da Mariana. Um deles acena com um lenço vermelho na mão. Depois de passarem solta-o. O calor é tanto que o pequeno quadrado de tecido mantém-se no ar, flutua, e vai parar a meus pés. Baixo-me para apanhar e a terra volta a estremecer esbaforida. Há uma insígnia semelhante à do Star Trek, mas com três letras. "LSD".

Publicado por Tiago Peregrino em 07:45 PM | Comentários (1)

julho 05, 2003

Purga (v1.1)

Limitámo-nos a preparar a manigância. Levámos o gajo para o café onde sabíamos que estaria toda a trupe. Confrontámo-lo com as mentiras, aquelas com que nos tentara seduzir nos últimos dias, piores que as nossas porque foram contra nós. Gostei da reacção. Hipócrita. Foi maior o prazer quando vi alguém fracturar-lhe o crâneo com duas biqueiradas, a cabeça ensanguentada na calçada, onde jazia o seu corpo fustigado por uma avalancha de socos. E nós não nos mexemos. Nada. Admirámos como é feita a excomunhão de um patrício. Depois conduzimo-lo ao barco, cheio de sangue. Apressei-me a proteger o meu corpo dos esguichos mortais de um seropositivo.
Desde então vimo-lo uma só vez. Uma noite, fantasma sem norte numa linha de cabeças baixas e derrotadas.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:54 PM | Comentários (0)

Negro, preto, escuro

Sou um reles excremento parasitário da sociedade. Como tal, abstenho-me de decisões políticas, sociais ou económicas.

Limito-me a que resolvam tudo sem que me pisem os calos em demasia. Sobrevivo de ar, e de uns cobres que a paternalidade de duas criaturas divinas assumiram sobre um abjecto como eu. Qual carraça agarrada sem dó à orelha de um cão tuberculoso.
Escondo-me sobre uma máscara burguesa e plástica, onde as posses e os conhecimentos servem de escudo de defesa contra a plebe e os incautos.
Desligo o meu computador conectado pela minha ligação de cabo à internet, desligo as luzes da minha casa, deixo a minha televisão ligada e entro no meu carro. Tudo meu, excepto se a moral fosse um dos meus princípios. Sou uma vil criatura, eu sei.
Quando consigo apanhar de relance a sombra que projecto à luz de um candeeiro de rua, numa noite onde é possível apanhar
essa mancha negra disforme, nunca vejo o meu eu que o espelho faz questão de iludir. Vislumbro antes o insecto que sou. Com antenas longas e caídas, uma corcunda horripilante, e umas patas peludas e asquerosas. Mais que as de Gregor naquela estúpida metamorfose. Não sou crisálida. Já nasci assim.
Sei que um dia vou ser apanhado por aquele maldito exterminador e os seus pós amarelos. O cabrão anda há décadas a tentar a dose certa de veneno, os ingredientes ideais, mas o máximo que conseguiu foi levar-me numa viagem para fora daqui durante dois dias. Quando voltei já estava pronto o funeral. E o caixão ainda lá está. À minha espera. Que sofram todos uma embolia cerebral, os filhos da puta!

Publicado por Tiago Peregrino em 12:52 PM | Comentários (0)

LSD

Love's Secret Domain - Coil (1991)

Lucy in the Sky with Diamonds - Beatles (1967)

Publicado por Tiago Peregrino em 12:51 PM | Comentários (2)

O cachimbo

"Schhh...estejam calados!", e um silêncio atroz descamba num zunido persistente da emissão televisiva com o som desligado. O Pedro pega na garrafa de plástico, cheia até metade, com um orifício na parte superior, de onde sai um tubo de plástico por onde inalamos o fumo. No topo do gargalo, um pequeno quadrado cortado de uma folha de alumínio preso com um elástico, esburacado com um alfinete, onde uma camada de cinza aconchega a base de coca acabada de fazer, receita do mestre André, insigne na arte do amoníaco.
Cada baforada deste cachimbo de água artesanal equivale a um valente estalo de realidade. Uma hipérbole dos sentidos. No interior do meu quarto consigo ouvir o puto do vizinho a implorar ao pai que o deixe ficar mais uns minutos acordado. A velhota francesa do lado a praguejar pela sua condição lunática de profunda solidão. O casal de baixo a foder, como todas as noites desde há duas semanas. A camioneta do lixo lá fora. O cão a ladrar. Uma luta de gatos. O rastejar de uma barata no chão. Que mato instintivamente. O estalejar da carcaça do bicho. A pasta branca presa à sola do sapato quando levanto o pé. Um arrepio agradável e um espasmo de prazer.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:46 PM | Comentários (1)

julho 04, 2003

A primeira vez

Fomos de carro. Velho, com a parte frontal desaparecida num acidente qualquer. Um veículo abandonado há muito pela incúria do dono. Com um cheiro pestilento a bafio no interior. Éramos quatro. Eu ia no banco de trás com o Joca, amigo de experiências adolescentes perigosas. À nossa frente dois agarrados versados no assunto, profundos conhecedores dos esquemas todos do bairro.
Parámos no coração de tudo, onde os carreiros de pessoas amontoavam-se encostados às paredes sujas. Por todo o lado, nos sítios mais altos, podíamos ver os vigias, sempre prontos a alertar para um carro patrulha, ou um paisana. "Uga !!", gritavam eles, e as formiguinhas desapareciam por todos os buracos. Alguns ficavam ali, pateticamente a assobiar aos céus, como se não fosse nada com eles. Se não soubéssemos ao que íamos, diria-se que estávamos no mercado municipal a comprar legumes, tal a quantidade e complexidade dos negócios que por ali se faziam. Fiquei sozinho no carro, trancado por dentro. Ao meu lado uma antiga experiência de homem, agora abandonada por Deus, limpava as seringas numa torneira que saía do solo, enferrujada e com um aspecto desagradável de bocados de não sei bem o quê agarrados ao bocal. Um pouco mais à frente um homem, já de idade, com pinta de nascido e criado no bairro, vendia impávido o seu rol de mercearias a estes inumanos das ruas do Casal. O iogurte líquido era o alimento principal de muitos. Inocentemente pensava que talvez por isso tivessem todos tão boa estrutura óssea. A seguir vinham as laranjas e um pedaço de pão. Esperei uma hora dentro daquele habitáculo repugnante. Foram três "ugas" que provocaram o atraso.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:40 PM | Comentários (1)

Cavalo

Vivo deitado na cama. No meu quarto, que é a minha casa. Empoeirada, caótica, onde bichos estranhos invadem cantos que desconhecia existirem. A televisão já não me conforta, e não sei porquê comecei as ler estes desatinos de Burroughs no "Festim Nú". Em pouco tempo transformou-se no meu livro de cabeceira. O único. Leio as passagens como uma bíblia ou um dicionário. Sem ordem ou tempo. É uma tentativa de abrigar a alma, ou então tentar perceber porque estou tão bem neste vácuo.
Rasgo mais uma folha de alumínio, retiro um pouco de pó do saquinho, com a respiração suspensa, regulo a chama do isqueiro Bic, coloco nos lábios o tubo feito também em alumínio para agarrar os restos do fumo, e sustenho umas valentes baforadas da gota caramelizada com sabor a fármaco fora do prazo de validade. De repente a Interzona é o caruncho de um azulejo azul, meio descolado, por onde salta a senhora Deolinda, barata tonta com humores de menopausa.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:37 PM | Comentários (0)

O meu festim nú

Levantei-me derrotado. Sem heroína estamos sempre derrotados. Liguei-lhe, "então? tens tempo livre para ir às compras?", e passados dez minutos estava num táxi com destino a Alcântara. Não entrei em colapso dentro do carro porque não calhou. Porque a necessidade de lá chegar era mais forte que o colapso. Porque tenho dinheiro e sei onde comprar vitórias. A espera agoniante leva-me a pensar vezes sem conta no que estou aqui a fazer. Como é que vim aqui parar. Há quanto tempo estou nisto.
Quando saio do táxi a minha auto-estima já foi reduzida a escombros. Siderado com os meus pensamentos, prestes a chorar, eis que chega a carrinha da realidade, "bora lá!", e no fim do garfo vislumbro um pedaço de carne putrefacta. Meia-hora e dois bafos depois sou o homem mais feliz do mundo.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:28 PM | Comentários (0)

Anjos

Nas ruas do Casal Ventoso encontrei uma miúda com cara de anjo. Perguntou-me, "Queres que te faça uma mamada? Só quero o algodão", mas eu retorqui que não chuto para a veia. Desgostosa, virou costas e pude ver na perna esquelética uma veia, saliente, apodrecida, com vurmo. Os anjos caem todos os dias no Casal Ventoso.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:26 PM | Comentários (0)

julho 03, 2003

Trilogia do Albatroz (3)

Tropecei para uma realidade negra. A luz desapareceu. Tão escuro, que tento cerrar os olhos para clarear a pouca visão tangível na negritude. E quando consigo, deparo-me com um novo rasto de sangue, frio, quase morto. Sigo o rasto e volto ao passado. A casa! Mais uma vez a casa! Agora está muito mais velha. Parece que devem ter passado uns bons anos desde a última vez que aqui vim. Um sítio trágico. Será que é o mesmo rasto de sangue? A mesma mulher? Não, passados tantos anos a vida deu concerteza muitas voltas. Vou aproximar-me. A sala continua igual, os móveis de pinho escuro envernizado, o papel plástico de parede, a louça do princípio de século, e a um canto... o corpo de alguém morto, origem óbvia do rasto de sangue. Desta vez não está mais ninguém presente... pudera... O homem morto é o mesmo que conheci! Mas está muito mais velho. Os anos passaram, a solidão deve ter dominado a pobre criatura, e a vida fugiu-lhe por entre as muitas recordações irrecuperáveis. Ele já encontrou a perfeição. O albatroz falou-lhe ao ouvido. E eu? Porque voltei aqui?

Publicado por Tiago Peregrino em 01:53 PM | Comentários (0)

Trilogia do Albatroz (2)

A casa do campo está ali novamente! A luz vinda da janela desapareceu. Que se passa? Preciso de ver a mulher. Quero mostrar-lhe que sou vulnerável, amigo, bom ouvinte, mas que oiça o que penso dela . Falar-lhe sobre tudo. Talvez consiga descobrir mais sobre mim. Mas o tempo passa e nada acontece. Estou enregelado! A noite ficou agora mais noite, mas os minutos correm lentamente, também congelados, como se tudo estivesse programado para acontecer no momento exacto. Posso sentir o coração aos pulos, o único factor racional numa situação destas. À medida que me aproximo da casa, sinto um zunir obcecado preencher o espaço. Um aviso? A premonição de um mal?
A porta está aberta, como é normal nestas ocasiões. Vinda de um canto, uma luz ténue faz transparecer algo de intangível que se aproxima assustadoramente. No chão, um rasto de sangue flui frio e linear estendendo-se por alguns metros. A mulher está morta.
"Filhos da puta! Cabrões! Foderam-na toda! Ela não queria mais, disse que por hoje tinha terminado... achou que ia acontecer alguma coisa estranha... que ia receber uma visita do outro mundo, disse ela...", e o homem riu-se meio triste, meio assustado, "... mas ela não queria mais..."
Rastejando até perto do semblante pálido da mulher, o homem acariciou-a uma última vez. Está tudo perdido... no tempo. Recordações lançadas na nostalgia. Afinal o contexto disto tudo estava certo e óbvio. Qualquer que fosse o destino que me tinham reservado neste sítio, chegou agora concerteza a altura exacta de voltar.

Publicado por Tiago Peregrino em 01:52 PM | Comentários (0)

Trilogia do Albatroz (1)

Noite... Brisa primaveril... Campo... Ahhh! Mas que ambiente perfeito! O meu parceiro desapareceu há questão de minutos do meu plano virtual . Agora compete-me a mim regressar sem a ajuda de ninguém. Ao longe, observo uma casa solarenga, daquelas que podemos ver em viagens reais pelo interior geográfico do nosso país. O granito usado para a construção das quatro paredes mantém uma luta corajosa com o tempo. De uma janela em madeira velha mas bem preservada, observo uma única divisão, onde sentada numa pequena cadeira jaz o corpo seminú e preguiçoso de uma mulher. Parece que aqui o mundo parou no tempo . Ao lado, um homem aparentemente zangado com alguma coisa dirige-se a mim.
"Ehh pá! Tás ma ver com cara d'otário? Não podes passar à frente dos outros! "
"Desculpe , mas não sei do que está a falar ! Venho aqui em paz ."
"Paz é o que todos querem , chaval! Paz , sossego , e uma bela queca na mulher! Agora desaparece! Amanhã há mais ..."
Mas o que é isto? De onde é que apareceu este para me invadir a minha tranquilidade? Parecia tudo tão dentro de contexto!
Chulos na minha trip! São todos uma merda !

Publicado por Tiago Peregrino em 01:51 PM | Comentários (0)

julho 02, 2003

Ela

ao partir senti o seu medo
pois era igual ao meu.
Ao partir vi o mundo passar a meus olhos
e ela ao fundo, num horizonte longínquo.

Uma figura, uma silhueta, ao fundo, ao longe.
Um dia estará perto, eu sei,
mas dói, e ela sabe
porque a dor é igual à minha.

Mas o nosso aliado acaba de chegar,
já lhe pedi ajuda e ele disse que sim.
Gritei alto e ele veio,
agora é esperar que o nosso aliado
na sua imensa sabedoria
faça o trabalho de toda a sua vida.
O trabalho que sempre soube fazer
e que tantas cicatrizes curou.

Tempo, amigo tempo, trabalha
obrigado, amigo tempo

Publicado por Tiago Peregrino em 06:57 PM | Comentários (0)

Um castelo, uma arena

A palavra uníssono aqui é vulgar. Deixo de ver todos, passo a ver quem eu quero. A miúda de cabelo liso, comprido e solto, a uns vinte metros de mim. A sua dança encanta. Aproximo-me para apreciar melhor. Ela não reage. Tem os olhos cerrados com imensa força, o lábio inferior mordido com convicção, uma gota de suor pelo pescoço até à clavícula, saliente e saborosa. Na tez minúsculos brilhantes de todas as cores. O cabelo atinge quem estiver à sua volta de uma forma delicada. Acaba por atingir-me a mim também. Arrepio-me e fecho os olhos cheio de prazer.

O meu corpo começa a criar vida própria. Sou uma marioneta, agora. Abro a boca ligeiramente como se estivesse a fazer amor com alguém. Quando abro os olhos ela já não está lá. Parto em busca desesperada, mas a estatueta dourada a meu lado não me permite. O seu efeito hipnótico em mim é ainda maior. É mais velha que eu e está vestida de ouro dos pés à cabeça. Faz-me sinal para que me aproxime. Eu sigo as ordens como um escravo do Nilo em prol de Cleópatra. Ela rasteja nas minhas costas como uma serpente. O calor que emana é tanto que ficamos colados. De repente volta-se e sinto-lhe a ponta dos seios, erectos, em contacto com o meu peito já encharcado. Ela prova-me do umbigo até à maçã de Adão, morde-a, deita uma risada matreira e foge em busca de nova vítima. É então que começo a prestar mais atenção ao som. Ou será o som que começou a prestar mais atenção a mim ? O volume aumenta. Pelo menos para mim. À minha frente ergue-se uma membrana etérea, delicada, que se acomoda na retina e indica-me que estou no auge. Não sinto o corpo. Não sinto cansaço. A miúda de cabelos longos está ali perto, mas agora isso já não me importa. Egoísta, entrego-me aos desenhos que o cérebro redige. Pareço um screensaver orgânico. De olhos bem fechados, figuras geométricas movimentam-se, mudam de cor, tornam-se transparentes, brilham, sempre ao ritmo. A última figura transforma-se numa linha recta que progride horizontalmente, como num daqueles aparelhos para medir o batimento cardíaco. Mas aqui está morta. De repente começa a formar distorções. Agora assemelha-se a um aparelho electrónico. Um osciloscópio. Ondas sinusoidais. Pontos dispersos numa nuvem de aproximações à linha. E agora um cheiro intenso a haxixe. Abro os olhos e vejo o sorriso patético do meu parceiro com uma ganza nos lábios.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:03 AM | Comentários (0)

julho 01, 2003

A Fonte

O zunir natural de quem acaba de sair de um bunker armadilhado com milhares de watts de potência sonora é insignificante. Há emoções que ultrapassam esses pequenos detalhes. O olhar vítreo apresenta-me uma realidade de um filme com excelente qualidade fotográfica. Sinto as folhas a cair, um arrepio orgásmico que percorre o corpo de lés a pés, e uma terrível cumplicidade com todos os que me rodeiam.

Sentado num banco do jardim, recebo do cérebro uma mensagem urgente que apela ao consumo alarve de água. Do outro lado da praça está uma pequena fonte onde todas as criaturas aqui presentes se alimentam do líquido. Levanto-me e oiço uma risada infantil nas minhas costas. À medida que me aproximo da fonte alguém faz o mesmo proveniente de outra direcção qualquer. O encontro é inevitável e de um sincronismo suíço. Dou a vez sem reparar quem é, mas depois de saborear uns tragos de água, levanta a cabeça e fita-me com uns olhos verdes magnânimos. Nunca fiz sexo como daquela vez.

Publicado por Tiago Peregrino em 07:20 PM | Comentários (0)

Grito

Com o suor a escorrer, o coração a roçar a garganta, paro um instante para fitar as vinhas que se alongam numa paisagem árida infindável. Ouve-se um grito, não muito histérico, nem muito de terror. Um grito.

Aproximo-me com o meu companheiro de viagem. Encostada a um muro de pedra uma holandesa que descansava e comia o seu medíocre repasto nórdico sente-se ameaçada por uma pequena raposa, inquieta, expectante, sinceramente habituada a estas rezas. Faz lembrar os pombos do Rossio, à espera de uma generosidade do transeunte anónimo. Tentamos convencer a miúda de pele cor de rosa pálido que o bicho não lhe vai fazer mal, mas a coisa está feia. Nas Holandas não devem ter disto, por cá também é situação rara uma raposa sociável. O meu parceiro saca de uma barra energética, daquelas que compramos ao princípio destas caminhadas para descargo de consciência. É vê-la a devorar os bocados como se fosse carne fresca. No fim pede mais, segue-nos, é uma raposa, das espertas. Esqueci-me de tirar uma fotografia.

Publicado por Tiago Peregrino em 06:52 PM | Comentários (0)