Ainda estou vivo... este blog regressa dentro de momentos.
Actualmente estou em fase simbiótica com uma preguiça que encontrei presa nas redes contrabandistas de Bogotá. Ainda estou a tentar perceber que benefícios lhe posso propor...
45677319/GJKL era um neurónio de extrema utilidade. Por ele passaram diversos milhões de impulsos. Sentimentos, estímulos motores, alguns tão importantes que muitas vezes debelaram e obrigaram à reconstrução de toda a sinapse do sistema central. A polícia do pensamento ainda não conseguiu descobrir como é possível que uma célula tão importante tenha desaparecido em condições tão misteriosas.
A última transmissão registada do 45677319/GJKL procedeu do seu canal de serotonina, também desaparecido. Um autêntico enigma. Há quem afirme que a um neurónio tão novo estavam a ser pesadas demasiadas responsabilidades. Desde que o sistema central passou a dedicar uma larga percentagem do seu labor às mudanças de humor, o 45677319/GJKL nunca mais seria o mesmo. Como todos os seus colegas, mantinha um nome, uma identidade que lhe fora atribuída por ocasião do seu nascimento. Recentemente o seu apontador neurológico para esse nome desaparecera e todos deixaram de saber o seu apelido. Ninguém sabe bem quando isto se passou. Essa informação ficou retida nas regiões de memória mais longínquas. Foi então que o registo 45677319/GJKL passou a ser a única maneira de o reconhecermos. Mas o mais estranho é que do seu axónio nunca foi enxerido qualquer pedido de acesso aos arquivos mortos. Ou seja, temos aqui o caso de um neurónio sem necessidade de se identificar.
Aparentemente vivia "feliz" assim. Satisfeito (?). Agora não sabemos o que aconteceu. Evaporou-se. E com ele ramificações que determinavam certas respostas do sistema. Algumas eram "vitais para o normal funcionamento da nossa entidade uníssona" (palavras do sistema).
Aquilo que sei é que desde essa altura passei a emitir impulsos de rotina monótonos e sem aparente correlação entre os nossos pares. Há quem diga que o sistema ficou corrompido. Eu prefiro defini-lo como "contente".
Retirei o braço da janela partida. Uma pequena e fina ponta de vidro rasga-me o braço. Mas nada sinto. Nada.
Salto a ventana sem provocar fragor com os pés nos estilhaços cortantes e pequenos, espalhados pelo chão de tijoleira da cozinha.
Na gaveta encontro uma faca, no armário uma lanterna. Sinto um espasmo e vergo o corpo arqueado. Os suores frios simulam uma estação do ano a que o organismo não sabe responder.
Transponho um pequeno corredor, uma arrecadação, uma sala pobre, outra mais equipada, e chego ao quarto.
Há um armário colado à parede, branco, largo, com um enorme espelho no topo, em madeira esculpida, diria Vitoriano.
Na cama dois seres bombeiam ar por entre as cobertas. Ignoro-os.
Começo pelas gavetas, uma a uma. Roupa interior, lenços, papéis e uma chave.
No tampo do armário está uma pequena caixa chinesa trancada. A chave abre-a, e revela jóias, brincos e colares.
Do bolso esquerdo retiro uma bolsa de veludo lilás escuro. Vão os brincos, que parecem valiosos, este colar nem por isso, mas nunca se sabe, aquele talvez, e um gemido.
Estático, agarro com todas as poucas forças que tenho a faca. Raios partam se é hoje que vou ter de matar alguém!
Sentado na base do paredão degradado, vislumbro através da névoa matinal, muito ao longe, o cume da serra de Sintra. O mar mostra alguns sinais de enfado. Eu também. Porque a noite despede-se com os corpos apáticos das pessoas que abandonam as suas casas para começar mais uma manhã de trabalho. Por trás de mim ouço os grunhidos dos motores algo afónicos com a humidade, uma buzinada aqui e ali, passos apressados, o rugido de um autocarro de cinco em cinco minutos.
Abro a pequena mochila, retiro o walkman e uma cassete com Leftfield. Play. Ganho coragem e começo a caminhar rumo à ponta do paredão, que trava uma discussão com as ondas do mar. À medida que me aproximo apercebo-me das vagas rasteiras de oceano que desmaiam no areal a meu lado. Não é espuma. São milhares de pequenos afoitos coelhos brancos que tentam chegar a terra, e que pouco a pouco desaparecem por entre os milhões de partículas arenosas.
Dou por mim estático, assombrado perante tal revelação.Desde então que os pequenos animais são companhia habitual em qualquer praia do mundo.
A terra estremece com impaciência. Os sulcos que se abrem, desde a planície até ao monte mais distante e alto, são veias por ondem corre o sangue infernal do planeta. Tudo está queimado, em brasa, fumegante, com um forte odor a enxofre. Napalm não poderia ser pior.
Um carro com quatro pessoas aproxima-se, descapotável, comprido e velho, como nos filmes "pela estrada fora" americanos. Passa por mim a alta velocidade, mas consigo identificá-los. São os Pink Floyd. Tal como os vi ontem na fotografia de uma revista velha e usada em casa da Mariana. Um deles acena com um lenço vermelho na mão. Depois de passarem solta-o. O calor é tanto que o pequeno quadrado de tecido mantém-se no ar, flutua, e vai parar a meus pés. Baixo-me para apanhar e a terra volta a estremecer esbaforida. Há uma insígnia semelhante à do Star Trek, mas com três letras. "LSD".
Limitámo-nos a preparar a manigância. Levámos o gajo para o café onde sabíamos que estaria toda a trupe. Confrontámo-lo com as mentiras, aquelas com que nos tentara seduzir nos últimos dias, piores que as nossas porque foram contra nós. Gostei da reacção. Hipócrita. Foi maior o prazer quando vi alguém fracturar-lhe o crâneo com duas biqueiradas, a cabeça ensanguentada na calçada, onde jazia o seu corpo fustigado por uma avalancha de socos. E nós não nos mexemos. Nada. Admirámos como é feita a excomunhão de um patrício. Depois conduzimo-lo ao barco, cheio de sangue. Apressei-me a proteger o meu corpo dos esguichos mortais de um seropositivo.
Desde então vimo-lo uma só vez. Uma noite, fantasma sem norte numa linha de cabeças baixas e derrotadas.
Sou um reles excremento parasitário da sociedade. Como tal, abstenho-me de decisões políticas, sociais ou económicas.
Limito-me a que resolvam tudo sem que me pisem os calos em demasia. Sobrevivo de ar, e de uns cobres que a paternalidade de duas criaturas divinas assumiram sobre um abjecto como eu. Qual carraça agarrada sem dó à orelha de um cão tuberculoso.
Escondo-me sobre uma máscara burguesa e plástica, onde as posses e os conhecimentos servem de escudo de defesa contra a plebe e os incautos.
Desligo o meu computador conectado pela minha ligação de cabo à internet, desligo as luzes da minha casa, deixo a minha televisão ligada e entro no meu carro. Tudo meu, excepto se a moral fosse um dos meus princípios. Sou uma vil criatura, eu sei.
Quando consigo apanhar de relance a sombra que projecto à luz de um candeeiro de rua, numa noite onde é possível apanhar
essa mancha negra disforme, nunca vejo o meu eu que o espelho faz questão de iludir. Vislumbro antes o insecto que sou. Com antenas longas e caídas, uma corcunda horripilante, e umas patas peludas e asquerosas. Mais que as de Gregor naquela estúpida metamorfose. Não sou crisálida. Já nasci assim.
Sei que um dia vou ser apanhado por aquele maldito exterminador e os seus pós amarelos. O cabrão anda há décadas a tentar a dose certa de veneno, os ingredientes ideais, mas o máximo que conseguiu foi levar-me numa viagem para fora daqui durante dois dias. Quando voltei já estava pronto o funeral. E o caixão ainda lá está. À minha espera. Que sofram todos uma embolia cerebral, os filhos da puta!
Love's Secret Domain - Coil (1991)
Lucy in the Sky with Diamonds - Beatles (1967)
"Schhh...estejam calados!", e um silêncio atroz descamba num zunido persistente da emissão televisiva com o som desligado. O Pedro pega na garrafa de plástico, cheia até metade, com um orifício na parte superior, de onde sai um tubo de plástico por onde inalamos o fumo. No topo do gargalo, um pequeno quadrado cortado de uma folha de alumínio preso com um elástico, esburacado com um alfinete, onde uma camada de cinza aconchega a base de coca acabada de fazer, receita do mestre André, insigne na arte do amoníaco.
Cada baforada deste cachimbo de água artesanal equivale a um valente estalo de realidade. Uma hipérbole dos sentidos. No interior do meu quarto consigo ouvir o puto do vizinho a implorar ao pai que o deixe ficar mais uns minutos acordado. A velhota francesa do lado a praguejar pela sua condição lunática de profunda solidão. O casal de baixo a foder, como todas as noites desde há duas semanas. A camioneta do lixo lá fora. O cão a ladrar. Uma luta de gatos. O rastejar de uma barata no chão. Que mato instintivamente. O estalejar da carcaça do bicho. A pasta branca presa à sola do sapato quando levanto o pé. Um arrepio agradável e um espasmo de prazer.
Fomos de carro. Velho, com a parte frontal desaparecida num acidente qualquer. Um veículo abandonado há muito pela incúria do dono. Com um cheiro pestilento a bafio no interior. Éramos quatro. Eu ia no banco de trás com o Joca, amigo de experiências adolescentes perigosas. À nossa frente dois agarrados versados no assunto, profundos conhecedores dos esquemas todos do bairro.
Parámos no coração de tudo, onde os carreiros de pessoas amontoavam-se encostados às paredes sujas. Por todo o lado, nos sítios mais altos, podíamos ver os vigias, sempre prontos a alertar para um carro patrulha, ou um paisana. "Uga !!", gritavam eles, e as formiguinhas desapareciam por todos os buracos. Alguns ficavam ali, pateticamente a assobiar aos céus, como se não fosse nada com eles. Se não soubéssemos ao que íamos, diria-se que estávamos no mercado municipal a comprar legumes, tal a quantidade e complexidade dos negócios que por ali se faziam. Fiquei sozinho no carro, trancado por dentro. Ao meu lado uma antiga experiência de homem, agora abandonada por Deus, limpava as seringas numa torneira que saía do solo, enferrujada e com um aspecto desagradável de bocados de não sei bem o quê agarrados ao bocal. Um pouco mais à frente um homem, já de idade, com pinta de nascido e criado no bairro, vendia impávido o seu rol de mercearias a estes inumanos das ruas do Casal. O iogurte líquido era o alimento principal de muitos. Inocentemente pensava que talvez por isso tivessem todos tão boa estrutura óssea. A seguir vinham as laranjas e um pedaço de pão. Esperei uma hora dentro daquele habitáculo repugnante. Foram três "ugas" que provocaram o atraso.
Vivo deitado na cama. No meu quarto, que é a minha casa. Empoeirada, caótica, onde bichos estranhos invadem cantos que desconhecia existirem. A televisão já não me conforta, e não sei porquê comecei as ler estes desatinos de Burroughs no "Festim Nú". Em pouco tempo transformou-se no meu livro de cabeceira. O único. Leio as passagens como uma bíblia ou um dicionário. Sem ordem ou tempo. É uma tentativa de abrigar a alma, ou então tentar perceber porque estou tão bem neste vácuo.
Rasgo mais uma folha de alumínio, retiro um pouco de pó do saquinho, com a respiração suspensa, regulo a chama do isqueiro Bic, coloco nos lábios o tubo feito também em alumínio para agarrar os restos do fumo, e sustenho umas valentes baforadas da gota caramelizada com sabor a fármaco fora do prazo de validade. De repente a Interzona é o caruncho de um azulejo azul, meio descolado, por onde salta a senhora Deolinda, barata tonta com humores de menopausa.
Levantei-me derrotado. Sem heroína estamos sempre derrotados. Liguei-lhe, "então? tens tempo livre para ir às compras?", e passados dez minutos estava num táxi com destino a Alcântara. Não entrei em colapso dentro do carro porque não calhou. Porque a necessidade de lá chegar era mais forte que o colapso. Porque tenho dinheiro e sei onde comprar vitórias. A espera agoniante leva-me a pensar vezes sem conta no que estou aqui a fazer. Como é que vim aqui parar. Há quanto tempo estou nisto.
Quando saio do táxi a minha auto-estima já foi reduzida a escombros. Siderado com os meus pensamentos, prestes a chorar, eis que chega a carrinha da realidade, "bora lá!", e no fim do garfo vislumbro um pedaço de carne putrefacta. Meia-hora e dois bafos depois sou o homem mais feliz do mundo.
Nas ruas do Casal Ventoso encontrei uma miúda com cara de anjo. Perguntou-me, "Queres que te faça uma mamada? Só quero o algodão", mas eu retorqui que não chuto para a veia. Desgostosa, virou costas e pude ver na perna esquelética uma veia, saliente, apodrecida, com vurmo. Os anjos caem todos os dias no Casal Ventoso.
Tropecei para uma realidade negra. A luz desapareceu. Tão escuro, que tento cerrar os olhos para clarear a pouca visão tangível na negritude. E quando consigo, deparo-me com um novo rasto de sangue, frio, quase morto. Sigo o rasto e volto ao passado. A casa! Mais uma vez a casa! Agora está muito mais velha. Parece que devem ter passado uns bons anos desde a última vez que aqui vim. Um sítio trágico. Será que é o mesmo rasto de sangue? A mesma mulher? Não, passados tantos anos a vida deu concerteza muitas voltas. Vou aproximar-me. A sala continua igual, os móveis de pinho escuro envernizado, o papel plástico de parede, a louça do princípio de século, e a um canto... o corpo de alguém morto, origem óbvia do rasto de sangue. Desta vez não está mais ninguém presente... pudera... O homem morto é o mesmo que conheci! Mas está muito mais velho. Os anos passaram, a solidão deve ter dominado a pobre criatura, e a vida fugiu-lhe por entre as muitas recordações irrecuperáveis. Ele já encontrou a perfeição. O albatroz falou-lhe ao ouvido. E eu? Porque voltei aqui?
A casa do campo está ali novamente! A luz vinda da janela desapareceu. Que se passa? Preciso de ver a mulher. Quero mostrar-lhe que sou vulnerável, amigo, bom ouvinte, mas que oiça o que penso dela . Falar-lhe sobre tudo. Talvez consiga descobrir mais sobre mim. Mas o tempo passa e nada acontece. Estou enregelado! A noite ficou agora mais noite, mas os minutos correm lentamente, também congelados, como se tudo estivesse programado para acontecer no momento exacto. Posso sentir o coração aos pulos, o único factor racional numa situação destas. À medida que me aproximo da casa, sinto um zunir obcecado preencher o espaço. Um aviso? A premonição de um mal?
A porta está aberta, como é normal nestas ocasiões. Vinda de um canto, uma luz ténue faz transparecer algo de intangível que se aproxima assustadoramente. No chão, um rasto de sangue flui frio e linear estendendo-se por alguns metros. A mulher está morta.
"Filhos da puta! Cabrões! Foderam-na toda! Ela não queria mais, disse que por hoje tinha terminado... achou que ia acontecer alguma coisa estranha... que ia receber uma visita do outro mundo, disse ela...", e o homem riu-se meio triste, meio assustado, "... mas ela não queria mais..."
Rastejando até perto do semblante pálido da mulher, o homem acariciou-a uma última vez. Está tudo perdido... no tempo. Recordações lançadas na nostalgia. Afinal o contexto disto tudo estava certo e óbvio. Qualquer que fosse o destino que me tinham reservado neste sítio, chegou agora concerteza a altura exacta de voltar.
Noite... Brisa primaveril... Campo... Ahhh! Mas que ambiente perfeito! O meu parceiro desapareceu há questão de minutos do meu plano virtual . Agora compete-me a mim regressar sem a ajuda de ninguém. Ao longe, observo uma casa solarenga, daquelas que podemos ver em viagens reais pelo interior geográfico do nosso país. O granito usado para a construção das quatro paredes mantém uma luta corajosa com o tempo. De uma janela em madeira velha mas bem preservada, observo uma única divisão, onde sentada numa pequena cadeira jaz o corpo seminú e preguiçoso de uma mulher. Parece que aqui o mundo parou no tempo . Ao lado, um homem aparentemente zangado com alguma coisa dirige-se a mim.
"Ehh pá! Tás ma ver com cara d'otário? Não podes passar à frente dos outros! "
"Desculpe , mas não sei do que está a falar ! Venho aqui em paz ."
"Paz é o que todos querem , chaval! Paz , sossego , e uma bela queca na mulher! Agora desaparece! Amanhã há mais ..."
Mas o que é isto? De onde é que apareceu este para me invadir a minha tranquilidade? Parecia tudo tão dentro de contexto!
Chulos na minha trip! São todos uma merda !
ao partir senti o seu medo
pois era igual ao meu.
Ao partir vi o mundo passar a meus olhos
e ela ao fundo, num horizonte longínquo.
Uma figura, uma silhueta, ao fundo, ao longe.
Um dia estará perto, eu sei,
mas dói, e ela sabe
porque a dor é igual à minha.
Mas o nosso aliado acaba de chegar,
já lhe pedi ajuda e ele disse que sim.
Gritei alto e ele veio,
agora é esperar que o nosso aliado
na sua imensa sabedoria
faça o trabalho de toda a sua vida.
O trabalho que sempre soube fazer
e que tantas cicatrizes curou.
Tempo, amigo tempo, trabalha
obrigado, amigo tempo
A palavra uníssono aqui é vulgar. Deixo de ver todos, passo a ver quem eu quero. A miúda de cabelo liso, comprido e solto, a uns vinte metros de mim. A sua dança encanta. Aproximo-me para apreciar melhor. Ela não reage. Tem os olhos cerrados com imensa força, o lábio inferior mordido com convicção, uma gota de suor pelo pescoço até à clavícula, saliente e saborosa. Na tez minúsculos brilhantes de todas as cores. O cabelo atinge quem estiver à sua volta de uma forma delicada. Acaba por atingir-me a mim também. Arrepio-me e fecho os olhos cheio de prazer.
O meu corpo começa a criar vida própria. Sou uma marioneta, agora. Abro a boca ligeiramente como se estivesse a fazer amor com alguém. Quando abro os olhos ela já não está lá. Parto em busca desesperada, mas a estatueta dourada a meu lado não me permite. O seu efeito hipnótico em mim é ainda maior. É mais velha que eu e está vestida de ouro dos pés à cabeça. Faz-me sinal para que me aproxime. Eu sigo as ordens como um escravo do Nilo em prol de Cleópatra. Ela rasteja nas minhas costas como uma serpente. O calor que emana é tanto que ficamos colados. De repente volta-se e sinto-lhe a ponta dos seios, erectos, em contacto com o meu peito já encharcado. Ela prova-me do umbigo até à maçã de Adão, morde-a, deita uma risada matreira e foge em busca de nova vítima. É então que começo a prestar mais atenção ao som. Ou será o som que começou a prestar mais atenção a mim ? O volume aumenta. Pelo menos para mim. À minha frente ergue-se uma membrana etérea, delicada, que se acomoda na retina e indica-me que estou no auge. Não sinto o corpo. Não sinto cansaço. A miúda de cabelos longos está ali perto, mas agora isso já não me importa. Egoísta, entrego-me aos desenhos que o cérebro redige. Pareço um screensaver orgânico. De olhos bem fechados, figuras geométricas movimentam-se, mudam de cor, tornam-se transparentes, brilham, sempre ao ritmo. A última figura transforma-se numa linha recta que progride horizontalmente, como num daqueles aparelhos para medir o batimento cardíaco. Mas aqui está morta. De repente começa a formar distorções. Agora assemelha-se a um aparelho electrónico. Um osciloscópio. Ondas sinusoidais. Pontos dispersos numa nuvem de aproximações à linha. E agora um cheiro intenso a haxixe. Abro os olhos e vejo o sorriso patético do meu parceiro com uma ganza nos lábios.
O zunir natural de quem acaba de sair de um bunker armadilhado com milhares de watts de potência sonora é insignificante. Há emoções que ultrapassam esses pequenos detalhes. O olhar vítreo apresenta-me uma realidade de um filme com excelente qualidade fotográfica. Sinto as folhas a cair, um arrepio orgásmico que percorre o corpo de lés a pés, e uma terrível cumplicidade com todos os que me rodeiam.
Sentado num banco do jardim, recebo do cérebro uma mensagem urgente que apela ao consumo alarve de água. Do outro lado da praça está uma pequena fonte onde todas as criaturas aqui presentes se alimentam do líquido. Levanto-me e oiço uma risada infantil nas minhas costas. À medida que me aproximo da fonte alguém faz o mesmo proveniente de outra direcção qualquer. O encontro é inevitável e de um sincronismo suíço. Dou a vez sem reparar quem é, mas depois de saborear uns tragos de água, levanta a cabeça e fita-me com uns olhos verdes magnânimos. Nunca fiz sexo como daquela vez.
Com o suor a escorrer, o coração a roçar a garganta, paro um instante para fitar as vinhas que se alongam numa paisagem árida infindável. Ouve-se um grito, não muito histérico, nem muito de terror. Um grito.
Aproximo-me com o meu companheiro de viagem. Encostada a um muro de pedra uma holandesa que descansava e comia o seu medíocre repasto nórdico sente-se ameaçada por uma pequena raposa, inquieta, expectante, sinceramente habituada a estas rezas. Faz lembrar os pombos do Rossio, à espera de uma generosidade do transeunte anónimo. Tentamos convencer a miúda de pele cor de rosa pálido que o bicho não lhe vai fazer mal, mas a coisa está feia. Nas Holandas não devem ter disto, por cá também é situação rara uma raposa sociável. O meu parceiro saca de uma barra energética, daquelas que compramos ao princípio destas caminhadas para descargo de consciência. É vê-la a devorar os bocados como se fosse carne fresca. No fim pede mais, segue-nos, é uma raposa, das espertas. Esqueci-me de tirar uma fotografia.