maio 23, 2004

Distopia(7): O Regresso de Um Drifter

A minha qualidade de subordinado à religião heroinómana, discípulo do alcalóide do Ópio todo-poderoso, tem se revelado proveitosa. Há dias percorria as vielas do bairro Branco quando me apercebi do enorme fascínio com que todos me olhavam. As virgens libelinhas escrutinavam a minha nova posição social por entre suaves bateres de asas reprovativos. Um homem desmedido, de hormonas escorridas por entre as suas largas mangas do fato cilíndrico, cinzento e gizado, via em mim um anacoreta perdido. Chegou mesmo a esboçar uma tímida vénia.
Um vagabundo em Distopia tem um destaque relevante no juízo de valores. Pode ser um mero pária, um dejecto, um resignado. Mas será sempre alguém com o mais alto patamar de pundonor, um viajante no labiríntico enigma da neurose narcótica, caminhos que qualquer distopiano morre de medo em investigar. O drifter (nome que as baratas anglófilas importaram das ilhas) é, por isso, um sacerdote. Alguém que já permaneceu inerte na ponta do fim do mundo, entre a apatia extrema e o desejo imaterial de assim viver para todo o sempre.
Foi nesta pose de ícone que esbarrei com um antigo colega da Sociedade Real de Opiáceos. A princípio não me reconheceu. Depois, com alguma dificuldade, consegui demonstrar-lhe quem era. Disse que está tudo na mesma, falou no tempo horrível que se tem apoderado da cidade, refugiou o olhar num táxi que se aproximava furtivamente, chamou-o enquanto me sorria com um esgar que lhe transformava a cara num buldogue, e despediu-se com um beijo nas costas da minha mãe esquelética, enquanto entrava pontapeado pelo ar para o banco traseiro do velho Mercedes de estofos transformados.
Beijou a minha mão. Com medo e vergonha, mas respeitoso. Esta vida de drifter pode ser uma bela profissão da alma.

Publicado por Tiago Peregrino em 06:09 PM | Comentários (0)

março 13, 2004

Distopia(6): Caos II - Guerra Mental

Ressaco. O meu corpo vibra como um diapasão. As frequências emitidas povoam o meu âmago, fantasmas entorpecidos que entram agora em ebulição. Tusso, expilo mucos das zonas mais profundas do meu corpo. Partes com que a doce anestesia dos opiáceos haviam cortado relações há eras. Sinto o expugnar da pele por hordes de doença. Saem sobressaltados com a interrupção involuntária das doses. Milhares de milhões que me ensebam todos os poros. Alucino. Vomito. Grito em excitações, parafernálias histéricas. Doze cavaleiros do Apocalipse entram de rompante pelos portões da minha senilidade e decretam a lei marcial. Há guerras, mortes, dissidências, sofreguidão de uns e miséria de outros, células e células, más e piores, terríveis e lancinantes. Rios de sangue correm desgovernados por canais linfáticos, de uma inexpressividade mórbida e aterradora.
Porquê, deuses, porquê? Tanta imundície, escárnio, obra de vampiros argutos que me comem as entranhas.
Que fiz eu, ratos sujos que invadis a minha mente? Deixai-me! Levai convosco essa corrupta forma de viver enegrecida. Bebei do vosso próprio fel, vis criaturas!

Publicado por Tiago Peregrino em 08:52 PM | Comentários (0)

janeiro 19, 2004

Distopia(6): Caos I - Despedido

No exórdio do comunicado são referidos "despedimentos por justa causa". Cismático, debruço o olhar sobre a enorme vitrina emparedada, onde no interior cada papel preso por um pionés se debate em esforço pelo seu sítio. A imensa burocracia da Sociedade Real de Opiáceos obriga a este mar de textos, adendas e avisos. Procuro pelo meu nome e algo surpreendido encontro-o, no último terço da lista de dispensas. Tenho direito a refutar a decisão na próxima reunião com o meu chefe, que já estava agendada para daqui a dois dias. Até lá, esclarece ainda o comunicado, "estou imediatamente suspenso de toda a actividade enquanto recenseador".

Acabaram-se as vigílias nos bairros periféricos em busca de toxicomaníacos ilegais; as horas extras ao frio e à chuva sempre com o pescoço em risco pelo olhar mais atento de um daqueles excrementos humanos; os cheiros repugnantes que as criaturas, as ruas e os bueiros exalam; a pantomima dos "recenseadores" ilegais, os que tentam passar por colegas de trabalho. Mas este afastamento também acarreta preocupações. Os infindáveis quinhões de heroína que me passavam pelas mãos vão desaparecer numa ridícula e legislada "dose do cidadão" que há muito ultrapassei. E ressacar está fora de questão.

Publicado por Tiago Peregrino em 11:38 PM | Comentários (0)

janeiro 11, 2004

Distopia(5): Catatonia

Sinto-o perto. Muito perto. Estou a ser seguido por estas vielas nauseabundas do Distrito Catatonia há quase uma hora. Os seus passos ecoam dissonantes com o gotejar desta maldita chuva ácida que se apoderou de Distopia já lá vai uma semana. Se acelero a marcha sinto-lhe o ritmo dos passos aumentar. A noite sem lua ajuda a que se esconda, mas também a mim. Vivalma. Só eu e este perseguidor, de sapatos com sola de couro ainda por estalar. A minha gabardina encharcada perdeu a luta com esta chuva há muito tempo. Ensopado. Os dejectos que se instalam nas minhas botas e pela barriga das pernas acima servem de tempero. Sou o aperitivo para esta criatura que hoje decidiu me escolher como vítima. Adiante. Invado uma congosta de chão resvaladio. Eu e milhares de metros cúbicos de água. Desembocamos num ardil. Perfeito para quem conhece este dédalo maldito. São três. Já me esperavam. O outro, o perseguidor, desliza poucos segundos depois pelo mesmo sítio que eu escolhera. Sem saída.

Enquanto dois me seguram pelos braços o perseguidor diverte-se a treinar pugilato com o meu ventre afeado. Como se não bastasse as substâncias que por lá passam diariamente a caminho do fígado. De vez em quando ajeita um soco à cara. À primeira vez sinto a cana do nariz partir. À segunda o sangue escorre, misturando-se com o dos lábios rasgados. A distância segura, talvez para não ser interrompido, o quarto elemento perscruta os bolsos do meu casaco e a carteira. Consigo entrever, pelo único olho que ainda não sofreu, tratar-se de um escaravelho. Grande, negro, bestial, de antenas ocultas até ao momento em que descobre aquilo que procurava. Depois de sibilar para os três homens, largam-me. Caio como um objecto inanimado. Um saco. Fico ali, deitado no cimento estalado de um qualquer beco imundo nos subúrbios de Distopia. A chuva cai com mais violência. Do alto de um prédio com telhas inclinadas uma pequena cascata teima em perfurar-me a face. Fico assim, estático, durante o tempo que for preciso.
Passadas umas horas chego a casa, cambaleante. O meu cuspo ainda é vermelho. Nas velhas escadas do prédio ouço o ranger de uma porta que se abre. A velha barata metediça assoma para tentar perceber quem faz tanto alarido a esta hora. Abro a porta, lanço a gabardina para um canto, procuro no balcão da cozinha a garrafa de aguardente de uva que um colega me ofereceu ontem e bebo dois sorvos generosos. Vou até ao quarto e retiro da gaveta da cómoda uma caixa de metal com relevos de cenas bíblicas e incrustações em pedra de jade. Lá dentro está a minha dose diária de heroína, um rolo de folha de alumínio, uma larga variedade de isqueiros e tubos de plástico. Coloco o equivalente a duas doses diárias em pó num quadrado cuidadosamente rasgado do rolo. Queimo, formando uma magnífica bolha cor de caramelo. Fumo cinco ou seis riscos, o suficiente para aliviar a dor, e levanto o auscultador do telefone. Marco um dos números da Sociedade Real de Opiáceos, onde me atende a voz lúgubre do meu chefe, e digo, "tive um problema em Catatonia. Levaram-me o cartão de recenseador". Depois de ouvir uns resmungos e grunhidos o chefe desliga. Hoje ninguém vai dormir naquele Distrito.

Publicado por Tiago Peregrino em 05:41 AM | Comentários (0)

dezembro 07, 2003

Distopia(4): Profissão

Um homem barbudo e desenvolto mete conversa comigo num café antigo na Praça dos Violados. A léria habitual. O estado do tempo, a diminuição da humanidade em Distopia, os besouros apanhados a contrabandear no rio Outrora (que são notícia de primeira página em todos os jornais), o espectáculo de Jeff Buckley que se aproxima e desperta ódios e invejas entre todos os que não conseguiram bilhete, futilidades diárias de quem nada mais tem para fazer do que se esparramar ao comprido num mocho de balcão. Até que surge a pergunta inevitável, "E você? Trabalha onde?", inquiriu sem que ele próprio tenha respondido.
Como vã tentativa de afastar tão vulgar criatura começo a discorrer sobre a minha faina.
A função, basicamente, é cadastrar todos os habitantes de Distopia que de alguma forma estão ligados ao consumo e comércio de ópio e seus derivados. Nestas famílias químicas existem vários departamentos. O meu é o da heroína. Um trabalho reles, eu sei. Particularmente se tivermos em conta que a Sociedade Real de Opiáceos é um dos sítios onde quase todas as pessoas gostariam de assentar arraiais. Mas como dizem naqueles filmes, "alguém tem de fazer este trabalho sujo".
Os heroinómanos são uma raça difícil de cadastrar. Os principais consumidores são humanos e vivem alienados em bairros periféricos. Muitos não trabalham, mantêm identidades fora de validade, moradas erráticas e ligações familiares há muito cortadas. Não são poucas as vezes que vejo o meu trabalho transformado em rábula de detective. Perdido nos arredores de Distopia, de foto na mão, indagando o paradeiro de alguém que estas outras carcaças ambulantes provavelmente até já conheceram, mas perderam algures no cérebro carcomido por experiências com derivados de qualidade incerta. É este o meu trabalho. Sou um profissional da indigência humana.

Publicado por Tiago Peregrino em 05:53 AM | Comentários (3)

setembro 23, 2003

Distopia (3): Sexo Oral

"Não vás", são as palavras que lhe adivinho nos espirros de baba espumosa e com pedaços consistentes e pegajosos, como gelatina. É difícil saciar sexualmente uma lesma. Os seus lábios vaginais são infinitos, e percorrem de uma ponta à outra a carne invertebrada, húmida, sem qualquer definição rígida e corpórea.

O sexo oral é um exercício linguístico desconforme para um humano. São necessárias em geral duas injecções intravenosas de cocaína na face inferior da língua para que não sinta nada. Assim (e só assim) consigo discorrer as papilas gustativas anestesiadas.
Dizer para que não saia implica mais esforço. Logo, mais droga.
Por detrás de uma mesa de cabeceira que sobreviveu duas guerras e vários bombardeamentos, a lesma retira dois pequenos pacotes envoltos em plástico ruidoso, como os de um supermercado. Cada um não tem mais que um punho de um homem bem constituído de tamanho.
"Preferes branca ou castanha?", vomita-me a lesma com a certeza da minha anuência. "Não sei", respondo. "Talvez as duas". O bicho atira os dois pacotes para o fundo da cama e espera. Sabe que só eu posso preparar o cozinhado com o requinte de um mestre francês. Com as mãos que a natureza não lhe deu, ao contrário daqueles enormes e brancos lábios vaginais.

Publicado por Tiago Peregrino em 03:42 AM | Comentários (0)

julho 18, 2003

Distopia (2): Underground

Chove como se Deus tivesse puxado o autoclismo. A água que cai não limpa a sujidade das artérias de Distopia. Escorre em direcção das sarjetas, e desaparece nas entranhas dos gigantescos esgotos, construídos há centenas de anos.

Dessas galerias imundas já ouvi muitas histórias. A mais credível fala de uma raça inumana. Também não são insectos como os que povoam a sociedade multirracial, caótica e cosmopolita de Distopia. Nunca vi nenhum, porque não mantêm contacto com o exterior, embora provenham daqui. São nómadas subterrâneos, párias execrados pelos seus. Por nós. Deixaram de ter crédito nas maiores espeluncas, alimentam-se de restos de ópio, deambulam sem rumo nos dejectos.
Por vezes alguém observa um deles de soslaio. Diz-se que parecem figuras espectrais. Há quem alvitre que são perigosos. Outros que contaminam. São como sereias que cantam num mar de merda, sempre prontos a receber mais homens, baratas, escaravelhos, vespas, lesmas, larvas. Todos interessam porque funcionam em matilhas desorganizadas de dor.
Em dias destes, quando os céus nos mijam incessantemente, ouvem-se lamúrias e gritos esganiçados das tampas que nos defendem daquele submundo. São as sereias.

Publicado por Tiago Peregrino em 10:22 PM | Comentários (0)

julho 12, 2003

Distopia(1): Introdução

Rumei ao centro de Distopia. As ruas aqui são estreitas, torcidas, intersectam-se nos sítios mais inesperados.

Onde ontem estava um junkie que bebericava meio litro de iogurte líquido, hoje encontro uma placa instalada temporariamente, "Zona de detritos humanos. Circule com precaução." Ao caminhar cerce ao passeio de uma rua qualquer nesta mancha labiríntica, suja de excrementos de cão, sou atraído pelo perfume de algumas notas de um saxofone que trespassa uma porta de madeira, muito velha e pesada. No topo um letreiro informa, "Tunes Bar", e ao lado, "Proibida a entrada a pessoas normais". Perfeito. O meu tipo de sítio.
Ao empurrar a porta sinto os primeiros fumos, um calor humano bafiento, galhofa ruidosa que só agora é perceptível, após descer alguns degraus. A arquitectura do espaço encobre com mestria aquele antro de putas, esbirros, chulos, gangsters, e também predadores como eu.
A um canto, encoberto por uma manta de escuridão, vislumbro um louva-a-deus que fuma ópio e lança poderosas bolas de fumo para o tecto negro. Está rodeado de pequenas larvas que se fazem passar por deslumbrantes futuras crisálidas. Querem apenas as patas do bicho para dar de comer à sua mosca-mãe. Encontrei-a ao cimo das escadas.
No pequeno balcão, incrustado há séculos a uma das paredes daquele sítio, um importante escaravelho regurgita uma dose de Jack Daniels, para depois voltar a deliciar-se com a mistura ácida resultante. A seu lado acompanha-o uma vespa, ao mesmo tempo que fumam charutos de Cuba.
No pequeno estrado de madeira, no canto oposto ao que se encontram as vampíricas larvas, um homem. De chapéu largo, camisa de alças brancas repleta de suor, calças de fazenda pretas, meias também escuras, e uns sapatos brilhantes, impecáveis, com polainas de um branco angelical. Com o saxofone tocava temas de John Zorn. Mas ninguém lhe ligava, todos absortos nos seus próprios ardis.
Sentei-me na única mesa que se encontrava desocupada, e logo as larvas se espreguiçaram com curiosidade. Um besouro com ares de agiota levanta-se incomodado com a minha presença e desaparece na negritude de um corredor que vai não sei para onde.
O empregado de mesa quase me segreda ao ouvido, como se nesta pocilga fosse proibido escolher, "Ópio ou Skunk?"

Publicado por Tiago Peregrino em 06:14 PM | Comentários (2)