setembro 20, 2004

Sem Título

Mais um texto do mesmo anónimo que escreveu "Relato de um Vivo/Morto que Queria Somar 2+2 e ter 3".

A noite acumula escuridão por entre a humidade que te adensa o respirar. O relógio público, ao fundo, alarga pela atmosfera as badaladas que confirmam o teu atraso para o sono ou para a insónia. Mexes-te na velocidade de quem esfria, entrincheirado num casaco de pelo de cão. Evitas o escorregar nas pedras da calçada.
As badaladas terminam. O atraso confirma-se.
Por uma montra de brinquedos: armas, bonecas ou carros amotinam-se numa espera de códigos de barras por cartões. O teu olhar estanca na vitrina. O frio aumenta e já nem o da rajada que corre por dentro do casaco. Fixas os panfletos de publicidade. Crianças que sorriem de armas de plástico em punho. Esperas que elas te animem. Esperas que o mesmo sorriso permaneça no momento em que elas extravasem o perímetro de papel, penetrando-se no teu interior a disparar rolinhos de pólvora seca que te liquefaz a compreensão de tudo isto.
Talvez esperes somente que elas te animem no propósito de te suicidares a ver desenhos animados.
Contudo nada disso vai acontecer. O frio apenas serve para não te elucidar que tens pressa de chegar a casa e os posters divertidos e coloridos para te entorpeceres em alucinações ilegíveis.
Chegado a casa ela aguarda.
- Sabias que 3/4 da população mundial morreu? - Diz ela
Isso não é importante, pensas tu. Ela adianta que morreram de tédio a ouvirem o bater dos ponteiros do relógio, a cronometrarem a pontualidade dos comboios ou a tentar ouvir o som da própria barba a crescer. Outros morreram a ver desenhos animados.
Isso não é importante pensas tu. Estás-te nas tintas se jazem corpos a feder pela via pública. A decomporem-se pelas frinchas da calçada. A formarem alimento para felicidade de bichos em cima de sofás com a televisão a passar desenhos animados exaustivamente.
Aproximas-te da cama onde ela está deitada, sem força para se conseguir levantar. Ela é um envulcro feito de uma pequena película de pele que cobre uma assimétrica arquitectura de ossos escavacados. Gostas de apagar cigarros na vagina dela e verificar que ela já não sente nada. Gostas de subverter os resquícios de feminilidade que perduram naquele corpo abusado. Descobriste-a num armazém a injectar-se com o próprio sangue e guarda-la no teu apartamento. Ela afasta a mascara de oxigénio do rosto e chama-te para o coito miserável e melancólico como cães esfomeados que acasalam para esquecer a fome.
Próximo do orgasmo seco ela segreda-te
- Estás frio.
Tu adiantas
- Está frio lá fora meu amor
Na televisão o caos está patente em todos os canais.
- Isto é o fim de tudo Isto é o fim de tudo Isto é fim de tudo - Diz o jornalismo mediático.
As imagens expandem -se em caos. Contudo não estás interessado. Ela também não. Aliás o oxigénio parece ter acabado.
Mudas de canal, para ver desenhos animados.

Publicado por Tiago Peregrino em 07:24 PM | Comentários (0)

julho 13, 2004

Relato de um Vivo/Morto que Queria Somar 2+2 e ter 3

Eis o texto de um drifter enviado via e-mail. Sem nomes ou assinaturas. Como se quer nos drifters de hoje. Mais serão sempre bem vindos.

A meio da noite recebi um telefonema embora tivesse o telefone desligado.
Foi num dia em que a água se acumulava na via publica e intensificava a
humidade na atmosfera, e o crepitar de ossos porosos, de velhos sem paciência para o suicídio. A meio dessa noite em que os automóveis fugiam pelo vácuo em segmentos de recta cuja dialéctica é um rede de sentidos que explicam (mais uma vez) a matemática dos dias, entrei num estado superior de alienação sensorial. Tentei fluir pela imaterialidade inconstante de um pensamento sem cabimento lógico. (A irracionalidade é a melhor arma para a compreensão de uma realidade incompreensível, da mesma forma em que uma boa pergunta é aquela que nunca possibilita uma boa resposta). Os semáforos, lá fora, perdiam-se em recusas e desculpas para uma pressa noctívaga, que talvez não fosse pressa mas medo. Medo do incongruente. Medo de algo que fosse alterar uma ordem pré-estabelecida pelo inconsciente colectivo, que forma tudo aquilo que vês e que não vês. A incongruência é a pior coisa que pode acontecer a um habitante de uma rede electrónica cujo funcionamento se explica facilmente com uma equação de variável única. Os vectores são elementos previsíveis, por acção de cálculos que já foram feitos, ordenados e expostos. Direcções e sentidos são coisas que fazem parte de uma rotina cuja resposta é um dado adquirido pela biologia dos organismos vivos.
(Parabéns, és uma inevitabilidade pré-estabelecida pela natureza
uniforme de um sistema sócio-psico-biológico).
O telefone, fazia ecoar pelas paredes interiores do meu cérebro, o seu
som de requerimento institucional.
- Aqui fala do T.M.P, tribunal das massas programadas, somos uma
subdivisão de D.E.U.S. Temos uma coisa para lhe dizer… A ordem institucional
merece ser mantida, tudo aquilo que fazemos é para o bem comum de todos nós. Um requerimento judicial será levado a cabo de forma a apurar a sua
responsabilidade. Boa Noite. - A voz de uma criança é sempre um bom alerta.
Após a chamada, as coisas melhoram. A alienação atingiu a fronteira do
intangível. Consegui, por acção de uma faca, fluir num espaço cuja compreensão e delimitação se torna impossível e a previsibilidade dos factos é uma utopia.
Senti-me mais vivo do que nunca, embora soubesse que

FIM

Publicado por Tiago Peregrino em 10:50 AM | Comentários (1)

maio 19, 2004

Interior

Os dias passam,
As noites deixam de existir.
Menos percebo o que sinto
Mais me quero “rir”.
Rir de uma dor profunda e conhecida
Ou então rir a sensação de estar completo e adorar a vida.

A felicidade a descobri, não totalmente.
Mas sei que não é o que sinto, mas o que faço sentir.
Mentir tudo isto a mim
Só assim me sinto a ti.

A posse é uma ilusão
O pensamento é a posse da mente sobre o coração.
O coração bate mas não pensa em bater.
O coração bombeia mas não o pensa para acontecer.
O amor dá-nos vida.
Vida é também o bater do coração.

Quando amamos, então, porque é que pensamos?
Afinal não bate o órgão do amor sem pensar?
Pensamento uma prisão do amor. Não será?

António Louro, Abril 2004

Publicado por Tiago Peregrino em 03:27 AM | Comentários (0)

abril 09, 2004

O Rio Não Pára de Correr

Para o momento em verdade viver,
é preciso esquecer, o nosso remoto passado e futuro que idealizamos.
O passado é necessário, mas não agora.
Para o agora só temos de levar o que somos no momento,
E sem pensarmos o que fomos e o que seremos,
Vivemos o já.
No segundo que agora passa, o passado está lá e o futuro nele se escreverá.
O presente é o tempo mais real.
Nele não pensamos nós. Aliás, pensamos no presente mas não sobre ele.
Parece que não se pode pensar o presente…só agir nele.
Quando pensamos no presente, imediatamente passou, imediatamente se trata de
passado ou futuro, imediatamente não é acção,
não sendo presente então.
O presente é o tempo mais real.
Embora muitas coisas já tenham acontecido e muitas outras ainda estejam para
ocorrer,
É no presente onde tu podes realmente ser e fazer acontecer.

António Louro, Março 2004

Publicado por Tiago Peregrino em 11:39 AM | Comentários (0)

julho 03, 2003

Main de musique

Expressão melodiosa de tudo o que existe,
Eterna intemporal e não contextual
Terapia do espírito, universal
A verdadeira medicina da alma real.

Personifica momentos
Dá vida e fogo a todas as memórias raras
Cria ambientes e solta desalentos
É um cristal protector de “coisas sagradas”.

É brisa de cor
Que nos molha com suave aroma
De louco esplendor
C´est la main…
C´est la vie
…C´est la musique.

é a música em si, de si para si,
para todos nós
Lá, Ré, Mi, com voz, Dó(s) é para voz.

É beleza inesperada
Uma arte infinita desgarrada
E desde sempre “explorada”
Surpreende-nos
Liberta-nos…

Conforta e abraça – nos com todas as suas cores
E o corpo responde com uma dança que brota flores
Toca-nos o coração e ficamos surdos para a razão
Reflecte o arco-íris, desenhando horizontes
Contem histórias, estórias, notas que conhecemos,
Cultura que não esquecemos e um pouco de alucinação.

Nua, descobre-nos
Não a podemos tocar
Mas sentimo-la a voar
Quando nos conta segredos de embalar.
Sempre presente, nunca ausente
Sempre possível, nunca impossível
(com ou sem improviso)
é o mais puro que temos para dar.

Mágica ou pesada
Une ou separa
Os seus elementos confluem
Num harmonioso ruído silencioso
Linear ou em contra-tempos
É a música do momento
Mas que encerra a de todos os ventos.

António Louro, 2003.

Publicado por Tiago Peregrino em 01:27 AM | Comentários (0)