agosto 27, 2009

Cinismo

Estou virtualmente no trabalho. Fisicamente sentado à secretária, ansioso, com as mãos algo trémulas de nervos envelhecidos pelo antigo e longínquo consumo de um gigantesco caleidoscópio de drogas. O tempo não flui com a velocidade que eu quero e tenho nada para fazer. Mas também não quero que comecem a cair coisas nesta ferramenta de software inútil de pedidos de alterações, reparações, análises, e outras coisas mais aos milhentos sistemas informáticos que esta corporação tem.
Sinto-me perdido por não ser útil, mas sentir-me-ia miserável se o fosse. Recordo com alguma frequência episódios do "Psicopata Americano" de Bret Easton Ellis. A espiral de demência transformada em espiral de violência. Às vezes não consigo entender como é possível que metade desta gente aguente tanto sapo pela goela, tanto tempo morto passado em cubículos ou "open spaces" normalizados e salubres, pendurados de cartazes cheios de procedimentos para prevenir esta exagerada Gripe A, qual gripe espanhola ou peste bubónica. Destaco sempre com cinismo as regras de comportamento social. Ou melhor, "distanciamento social". Regras que incluem o aconselhamento a não tocar em outros seres humanos. Pelo seu bem. E pelo bem da corporação, que de outra forma se verá espoliada de não sei quantos por cento de "massa laboral", esse objecto abstracto de carga humana em constante avaliação probabilística.
Sento-me ao computador para escrever estas linhas e tentar sentir o pêndulo do tempo passar com maior celeridade. Tic. Tac. Tic. Tac. À minha volta hordas de pessoas movimentam-se por entre papéis e secretárias, redes de computadores ligados entre si sem medo de gripes, mas alucinados com vírus de hackers russos ou finlandeses.
Há cura para este olhar bovino que me assola o espírito? Para encontrar uma alegria no meio de tanto Kafka?
Com cinismo espero que sim.

Publicado por Tiago Peregrino em agosto 27, 2009 03:05 PM | TrackBack