junho 07, 2005

No Cinema...

Tratando este blog de destacar o que de mais disfuncional a sociedade pode criar, e mantendo aberta a perspectiva de que nem só de livros da geração beat (ou sucedâneos) vive o retrato dessa parte paradoxalmente renegada e idolatrada do comportamento humano, esta passará a ser mais uma secção absolutamente não-periódica, espontânea, e de óbvio poder argumentativo para os leitores.
A sétima arte está cheia de filmes "off-beat", "contra-corrente", seja qual for o termo catalogado. Eis alguns, a que se seguirão outros, conforme a disponibilidade e a memória me permitam.

- "Straw Dogs" (1971), de Sam Peckinpah. Provavelmente um dos mais perturbadores estudos sobre o comportamento humano e a responsabilidade subconsciente. A misoginia ou o sexismo de que é acusado por alguns são, na minha opinião, aspectos meramente figurativos e exemplificativos do que Peckinpah pretende com o seu filme: um tratado sobre o paradoxal conflito interior dos nossos sentimentos. Um momento alto é o diálogo final entre a personagem de Dustin Hoffman e David Warner. Nenhum sabe o caminho para casa, porque já nenhum deles consegue reconhecer a fronteira da sua humanidade.

- "Funny Games" (1997), de Michael Haneke. Se o primeiro título que referi usava a violência como ferramenta para retratar uma visão, esta obra de Haneke eleva o padrão a uma mise-en-scéne realista, brutal, num claro piscar de olhos ao consumismo do sangue na sociedade actual. O tema final de John Zorn, mestre do jazz-metal-core, é o corolário de um filme inesquecível (quer se queira, quer não).

Publicado por Tiago Peregrino em 05:47 AM | Comentários (1)

junho 06, 2005

O Ciúme da Ressaca

Sinto-a como um desconcertante vulto celeste que giza uma rota gravitacional em redor do meu corpo. Como uma ameaça constante à minha integridade emocional. Um enjôo matinal que rasga as entranhas como uma paixão adolescente. Sinto-a ali, perfeita, irracional, infiel, pronta a comprimir a minha alma como um pedaço de papel esmagado. Uma brincadeira de crianças. Um tremendo grito de revolta que se apodera de mim com a força de um mundo em queda livre. Vejo-a com outro, em lisonjeira cavaqueira, numa sedução que fere mais que todas as lágrimas que já derramei e as que verterei no futuro. Ah! Se não fosses a minha Heroína, matava-te só para mim!

Publicado por Tiago Peregrino em 10:11 PM | Comentários (0)

junho 03, 2005

Queimado

Sou guiado por impulsos eléctricos. Eu sei. Todos sabem. Percorrem-nos o circuito do sistema nervoso como um gigantesco quadro de alta tensão que fornece milhares de Watts a um grande país. O problema é que nós não somos apenas corrente. Alterna ou contínua. As sinusoidais do osciloscópio servem de interpretação à alma? Os implantes neuronais estimulam o acto X, mas não terão consequências no acto Y? Só o sujeito em questão o saberá. Mas sou guiado por impulsos eléctricos. E actualmente receio que estou em curto-circuito.

Publicado por Tiago Peregrino em 03:46 AM | Comentários (1)