No motel da rua Esquerda
Com uma clara e inocente satisfação, soltei um esgar de bizarria. Suzy, boneca de porcelana branca, puta de profissão, vendia também pensamentos. Nada de citações de fulano ou sicrano. Pensamentos genuínos, dos que só ela fora instruída no decurso da sua vida cheia de episódios lacónicos. Senti-os trespassarem as almofadas enxovalhadas entre os nossos corpos. Rumores que saíam da sua boca proibida, que emanavam do suor que lhe escorria pelo ventre, misturado com o perfume barato e exageradamente doce.
O nosso ninho, no meio daqueles lençóis brancos do motel da rua Esquerda, transformara-se num palco de improvisação, uma stand-up comedy da vida real, ou uma jam session de lamentações e querelas aninhadas no mais puro caos. Sempre que Suzy sorria era de sarcasmo, não de prazer ou felicidade. Comecei a questionar o meu saber, aquilo por que alguns investiam em mim como futuro senhor engenheiro doutor das doutas leis dogmáticas.
Depois de algumas lições paguei os préstimos com bonificação, deixei-a sozinha no quarto, e desci as escadas com direcção ao bar de traços art-déco falaciosos. Com dois copos de Jack, ouvi um fantasma ao ouvido que me preconizava a viver com celeridade, não a pensar.
Publicado por Tiago Peregrino em
11:25 PM
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Doutor
Nos meus dias de judiaria e chulice descarada, conheci um fotógrafo de feições animalescas proveniente de Samoa. Os velhos Ray-Ban de lentes castanhas escurecidas envolviam aquela personagem numa invulgar auréola kitsch. Nunca em tempo algum cumprimentara um colega de profissão colocado dentro de umas bermudas tamanho XXXL, de camisa havaiana desfraldada e demasiado curta, onde se vislumbrava por entre uma imensidão de pelos púbicos uma impressionante cúpula de gordura, saliente e flácida, entre o umbigo e a cintura descaída. Estávamos em pleno inverno.
O Doutor (assim o chamavam pela sua infinita sabedoria na nobre arte de consumir substâncias de duvidosa legalidade) seria durante os próximos dias o meu assistente em Macau, na altura ainda sob protectorado luso. O nosso objectivo era acompanhar com a máxima seriedade e profissionalismo o Grande Prémio de Macau, uma das mais emblemáticas corridas do continente asiático. Para tal, a intenção dos nossos empregadores, um pasquim do norte do país, era infiltrar pelo menos um de nós no mundo de faunos e divas plastificadas que se pavoneavam na grelha de partida. Mas o Doutor, de tão douto que era nestas coisas, aconselhou-me a manter uma distância segura entre o frenesim das boxes e a sala de jornalistas creditados. Foi então que decidimos por comum acordo abastecer aquela empreitada de ácidos, óleos de haxixe marroquino, sementes de maconha para aguçar o neurónio da desconfiança, e umas garrafinhas de "poppers", o fantástico líquido vaporoso que nos eleva aos píncaros da irracionalidade, além de manter o ânus aberto a experiências sexuais molestas.
Na época sentia uma forte atracção por fumar cigarros com uma boquilha, mas o Doutor achava esse processo uma intromissão na função dos fumos que supostamente deveriam chegar impolutos ao cerne dos pulmões. Depressa cheguei à conclusão que o homem não batia bem da cabeça. Mas as suas dissertações sobre a presença da mafia chinesa na grelha de partida do Grande Prémio de Macau revelavam-se pertinentes, especialmente depois de coincidirmos "por acaso" com Serafina das Pontes, a mulher mais abjecta do mundo jornalístico. O seu olhar era fortemente delatório. E a maconha não ajudou a aliviar o sentimento de escuta permanente que sentia nos zumbidos que me acossavam os tímpanos. Permanente. Como se uma pequena engenhoca me tivesse sido secretamente incrustada antes de partir de Lisboa.
Quando acordei no quarto de hotel era notória a actividade que ali se processara para manter afastados estes receios. A água inundava o piso, a porta era violentamente batida por um gerente enraivecido, e nas paredes uma mensagem escrita a sangue pelo Doutor Samoano: "apanhei o avião das cinco para Madagáscar. Li algures que precisam de um advogado. Espero instruções da prefeitura de Foz do Iguaçu. Até breve."
Nunca mais o vi.
Em memória e reverente dedicação ao trabalho de
Hunter S. Thompson (que se suicidou a 20 de Fevereiro de 2005, após anos de proeminente
Gonzo Journalism)
Publicado por Tiago Peregrino em
02:32 PM
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Drifting...
Ainda estou vivo... este blog regressa dentro de momentos.
Publicado por Tiago Peregrino em
08:31 PM
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