Mais um texto do mesmo anónimo que escreveu "Relato de um Vivo/Morto que Queria Somar 2+2 e ter 3".
As badaladas terminam. O atraso confirma-se.
Por uma montra de brinquedos: armas, bonecas ou carros amotinam-se numa espera de códigos de barras por cartões. O teu olhar estanca na vitrina. O frio aumenta e já nem o da rajada que corre por dentro do casaco. Fixas os panfletos de publicidade. Crianças que sorriem de armas de plástico em punho. Esperas que elas te animem. Esperas que o mesmo sorriso permaneça no momento em que elas extravasem o perímetro de papel, penetrando-se no teu interior a disparar rolinhos de pólvora seca que te liquefaz a compreensão de tudo isto.
Talvez esperes somente que elas te animem no propósito de te suicidares a ver desenhos animados.
Contudo nada disso vai acontecer. O frio apenas serve para não te elucidar que tens pressa de chegar a casa e os posters divertidos e coloridos para te entorpeceres em alucinações ilegíveis.
Chegado a casa ela aguarda.
- Sabias que 3/4 da população mundial morreu? - Diz ela
Isso não é importante, pensas tu. Ela adianta que morreram de tédio a ouvirem o bater dos ponteiros do relógio, a cronometrarem a pontualidade dos comboios ou a tentar ouvir o som da própria barba a crescer. Outros morreram a ver desenhos animados.
Isso não é importante pensas tu. Estás-te nas tintas se jazem corpos a feder pela via pública. A decomporem-se pelas frinchas da calçada. A formarem alimento para felicidade de bichos em cima de sofás com a televisão a passar desenhos animados exaustivamente.
Aproximas-te da cama onde ela está deitada, sem força para se conseguir levantar. Ela é um envulcro feito de uma pequena película de pele que cobre uma assimétrica arquitectura de ossos escavacados. Gostas de apagar cigarros na vagina dela e verificar que ela já não sente nada. Gostas de subverter os resquícios de feminilidade que perduram naquele corpo abusado. Descobriste-a num armazém a injectar-se com o próprio sangue e guarda-la no teu apartamento. Ela afasta a mascara de oxigénio do rosto e chama-te para o coito miserável e melancólico como cães esfomeados que acasalam para esquecer a fome.
Próximo do orgasmo seco ela segreda-te
- Estás frio.
Tu adiantas
- Está frio lá fora meu amor
Na televisão o caos está patente em todos os canais.
- Isto é o fim de tudo Isto é o fim de tudo Isto é fim de tudo - Diz o jornalismo mediático.
As imagens expandem -se em caos. Contudo não estás interessado. Ela também não. Aliás o oxigénio parece ter acabado.
Mudas de canal, para ver desenhos animados.