junho 26, 2004

Na Garagem da Iolanda

As suas pernas abraçam a minha cintura, sufocando-me como uma anaconda em processo alimentar. Parecem tenazes viris, apêndices primatas de um corpo longe do selvagem, mas tampouco de mulher urbana e formada. Seguro-a de pé, pelas nádegas, lançando-a num movimento próximo ao do cavalgar. Galgamos metros e metros em doce corrupio. Um pião tresloucado em meio a esta turba de chulés, homens, suores, mulheres, crianças, meninas, pessoas disfarçadas de flanela aos quadrados e gangas corroídas pelo tempo e pela inocência de quem não sabe o que faz. Os seus cabelos louros desfraldam ao som das guitarras de Soundgarden e Pearl Jam. As vozes de Eddie Vedder e Chris Cornell soam em tom de magnanimidade, poetas da depressão beat, contestatários da nossa condição humana, do fel quotidiano.
Por um momento ela pára os seus violentos movimentos abdominais, levanta o tronco como um pavão cioso, a cabeça bem acima da minha, os longos cabelos molhados inclinados para a frente agarram-se à minha fronte, os seus seios robustos e roliços ameaçam sufocar-me. E por um momento beijamo-nos selvaticamente, o seu sal e o meu como petiscos na ponta das nossas línguas secas de cerveja. E depois regressamos ao carrocel inebriado, perdidos na multidão e no fumo. Por momentos julguei ver Kurt Cobain encostado ao balcão do bar improvisado, também ele perdido num copo de whiskey.

Publicado por Tiago Peregrino em 09:34 PM | Comentários (0)