maio 23, 2004

Distopia(7): O Regresso de Um Drifter

A minha qualidade de subordinado à religião heroinómana, discípulo do alcalóide do Ópio todo-poderoso, tem se revelado proveitosa. Há dias percorria as vielas do bairro Branco quando me apercebi do enorme fascínio com que todos me olhavam. As virgens libelinhas escrutinavam a minha nova posição social por entre suaves bateres de asas reprovativos. Um homem desmedido, de hormonas escorridas por entre as suas largas mangas do fato cilíndrico, cinzento e gizado, via em mim um anacoreta perdido. Chegou mesmo a esboçar uma tímida vénia.
Um vagabundo em Distopia tem um destaque relevante no juízo de valores. Pode ser um mero pária, um dejecto, um resignado. Mas será sempre alguém com o mais alto patamar de pundonor, um viajante no labiríntico enigma da neurose narcótica, caminhos que qualquer distopiano morre de medo em investigar. O drifter (nome que as baratas anglófilas importaram das ilhas) é, por isso, um sacerdote. Alguém que já permaneceu inerte na ponta do fim do mundo, entre a apatia extrema e o desejo imaterial de assim viver para todo o sempre.
Foi nesta pose de ícone que esbarrei com um antigo colega da Sociedade Real de Opiáceos. A princípio não me reconheceu. Depois, com alguma dificuldade, consegui demonstrar-lhe quem era. Disse que está tudo na mesma, falou no tempo horrível que se tem apoderado da cidade, refugiou o olhar num táxi que se aproximava furtivamente, chamou-o enquanto me sorria com um esgar que lhe transformava a cara num buldogue, e despediu-se com um beijo nas costas da minha mãe esquelética, enquanto entrava pontapeado pelo ar para o banco traseiro do velho Mercedes de estofos transformados.
Beijou a minha mão. Com medo e vergonha, mas respeitoso. Esta vida de drifter pode ser uma bela profissão da alma.

Publicado por Tiago Peregrino em 06:09 PM | Comentários (0)

maio 19, 2004

Pensamento... (9)

A letargia é a masturbação da preguiça. Logo, sou um punheteiro profissional.

Publicado por Tiago Peregrino em 03:43 AM | Comentários (0)

Interior

Os dias passam,
As noites deixam de existir.
Menos percebo o que sinto
Mais me quero “rir”.
Rir de uma dor profunda e conhecida
Ou então rir a sensação de estar completo e adorar a vida.

A felicidade a descobri, não totalmente.
Mas sei que não é o que sinto, mas o que faço sentir.
Mentir tudo isto a mim
Só assim me sinto a ti.

A posse é uma ilusão
O pensamento é a posse da mente sobre o coração.
O coração bate mas não pensa em bater.
O coração bombeia mas não o pensa para acontecer.
O amor dá-nos vida.
Vida é também o bater do coração.

Quando amamos, então, porque é que pensamos?
Afinal não bate o órgão do amor sem pensar?
Pensamento uma prisão do amor. Não será?

António Louro, Abril 2004

Publicado por Tiago Peregrino em 03:27 AM | Comentários (0)

maio 17, 2004

Nús (e com gumes)

Os Mão Morta editaram "Nús", o seu último álbum. Adolfo Luxúria Canibal reconhece, no seu manifesto que li no site oficial da banda, que o poema "Uivo" ("Howl") de Allen Ginsberg foi o "ponto de partida, quer para a composição quer para as letras".
Não resisto a deixar um excerto de "Gumes", o tema que abre o disco. A letra reporta ao quarto momento (ou "quadro sobreposto", como refere Adolfo).

Estou farto disto
Não posso mais
Todos os dias
Passam iguais
Como um fantasma
Com escorbuto
Corro a cidade na busca de um xuto
Speed ou heroa
Coca ou morfina
Tudo me serve
Como vacina
Desde que traga a santa narcotina
Furam-me os ossos
Caem-me os dentes
Reflicto ao espelho sinais indigentes
Mas o pavor
É da ressaca e da dor

Já desvairado
Com tanta volta
Sempre sem ver
Poda ou recolta
Fico em suores
Vem-me a carência
Sinto-lhe a mão sem qualquer clemência
Pica-me as pernas
Prende-me as costas
Fere-me os tímpanos
Em dores expostas
No rito ansioso do coçar das crostas
Não posso mais
Tudo o que eu quero
É ver-me livre deste ruim desespero
Um caldo tal
Que seja um ponto final

Publicado por Tiago Peregrino em 02:45 PM | Comentários (1)