janeiro 30, 2004

ecstasy

Saí relutante da festa. Ela beijava-me aos tropeções, mordiscava-me o lóbulo com descuido, agarrava-me pelas ancas, enganchava-me entre os seus braços preguiçosos. A sua pele, que há horas eu sentira suave e especialmente cheirosa, estava imersa em suor. A minúscula t-shirt que trazia colava-se àquele corpo pueril. O umbigo destacava-se, tatuado e com piercing, símbolo tribalista de evocação matriarcal.
Cá fora o frio devia ser implacável, a acreditar naquelas expressões de desalento nos mais madrugadores, embutidos em mil peças de roupa de lã e sobretudos.
Ela insistiu em beber um chá de limão no café junto à praça de árvores nuas, cujas grandes folhas moribundas cobriam a calçada como um enorme estrado de madeira. Os primeiros raios de sol invadiram por entre as fachadas dos prédios arte nova degradados. Colocámos os óculos de sol, quais criaturas noctívagas e vampíricas.
Do seu cabelo escorria uma madeixa comprida afunilada em missangas arco-íris. Ela falava e falava e falava. E eu ouvia e ouvia e ouvia, absorto nos seus lábios pequenos, abrilhantados e com cheiro a baunilha. E assim ficámos durante meia vida ou mais.

Publicado por Tiago Peregrino em 05:06 PM | Comentários (4)

janeiro 22, 2004

Snail Poem

Peter Orlovsky foi poeta, músico, agricultor, professor, e companheiro do poeta Allen Ginsberg. Nasceu em 1933 no Lower East Side de Nova Iorque. Aqui fica um dos seus poemas.

Make my grave shape of heart so like a flower be free aired
& handsome felt,
Grave root pillow, tung up from grave & wigle at
blown up clowd.
Ear turnes close to underlayer of green felt moss & sound
of rain dribble thru this layer
down to the roots that will tickle my ear.
Hay grave, my toes need cutting so file away
in sound curve or
Garbage grave, way above my head, blood will soon
trickle in my ear -
no choise but the grave, so cat & sheep are daisey
turned.
Train will tug my grave, my breath hueing gentil vapor
between weel & track.
So kitten string & ball, jumpe over this mound so
gently & cutely
So my toe can curl & become a snail & go curiously
on its way.

Nova Iorque, 1958

Publicado por Tiago Peregrino em 12:58 PM | Comentários (0)

janeiro 20, 2004

Serial Killer

Don DeLillo em entrevista à sueca Cecilia Sjoholm, em 1994, falou sobre o conceito de "serial killer" na sociedade actual. Eis um excerto.

They have such power, they actually change the way we look at the world. There isn't such a difference between violence and popular culture -- they are blended together, mutual. People are attracted by violence. Last month, Charles Manson was on TV.
The interviewer asked him, "Are you crazy?" and Manson replied, "Of course I'm crazy, I am completely insane. But before, it meant something. Now everyone is crazy." This supported my belief that the world had caught up with the dark vision that I spoke of earlier, a lower form of consciousness. Nowadays there are so many Mansons that you can hardly tell them apart--the serial killers. Now they're a part of life. Mailer's book about Gary Gilmore shows how the media attention around the execution becomes more important than the event itself. Personally, I'm convinced that television and the continual repetition of murder that is shown there has a direct connection with the arrival of the serial killer. Technology and violence are interdependent.

Publicado por Tiago Peregrino em 05:19 AM | Comentários (0)

janeiro 19, 2004

Distopia(6): Caos I - Despedido

No exórdio do comunicado são referidos "despedimentos por justa causa". Cismático, debruço o olhar sobre a enorme vitrina emparedada, onde no interior cada papel preso por um pionés se debate em esforço pelo seu sítio. A imensa burocracia da Sociedade Real de Opiáceos obriga a este mar de textos, adendas e avisos. Procuro pelo meu nome e algo surpreendido encontro-o, no último terço da lista de dispensas. Tenho direito a refutar a decisão na próxima reunião com o meu chefe, que já estava agendada para daqui a dois dias. Até lá, esclarece ainda o comunicado, "estou imediatamente suspenso de toda a actividade enquanto recenseador".

Acabaram-se as vigílias nos bairros periféricos em busca de toxicomaníacos ilegais; as horas extras ao frio e à chuva sempre com o pescoço em risco pelo olhar mais atento de um daqueles excrementos humanos; os cheiros repugnantes que as criaturas, as ruas e os bueiros exalam; a pantomima dos "recenseadores" ilegais, os que tentam passar por colegas de trabalho. Mas este afastamento também acarreta preocupações. Os infindáveis quinhões de heroína que me passavam pelas mãos vão desaparecer numa ridícula e legislada "dose do cidadão" que há muito ultrapassei. E ressacar está fora de questão.

Publicado por Tiago Peregrino em 11:38 PM | Comentários (0)

Os Nomes

Eis um pequeno excerto de uma das primeiras obras de Don DeLillo, um dos inspiradores de Chuck Palahniuk. O livro chama-se "Os Nomes" e a tradução esteve a cargo de Maria Manuela Ribeiro. A edição é de 2003 para a colecção Mil Folhas. O original é de 1982.

- Existe um alfabeto aramaico, ou quê?
Encolheu os ombros.
- Já ninguém sabe escrevê-lo. São apenas sons. Viajou pela história com os judeus. Foi utilizado sozinho, foi misturado com outras línguas. Aramaico macarrónico. Foi transmitido pela religião e agora morre por causa da religião, por causa do Islão, do arábico. É a religião que transmite uma língua. O rio da língua é Deus.
E mais.
- O alfabeto é macho e fêmea. Se conhecermos a ordem correcta das letras, construímos um mundo, criamos. É por isso que eles ocultam a ordem. Se conhecermos as combinações, fazemos a vida e a morte.

Publicado por Tiago Peregrino em 11:24 PM | Comentários (5)

janeiro 11, 2004

Distopia(5): Catatonia

Sinto-o perto. Muito perto. Estou a ser seguido por estas vielas nauseabundas do Distrito Catatonia há quase uma hora. Os seus passos ecoam dissonantes com o gotejar desta maldita chuva ácida que se apoderou de Distopia já lá vai uma semana. Se acelero a marcha sinto-lhe o ritmo dos passos aumentar. A noite sem lua ajuda a que se esconda, mas também a mim. Vivalma. Só eu e este perseguidor, de sapatos com sola de couro ainda por estalar. A minha gabardina encharcada perdeu a luta com esta chuva há muito tempo. Ensopado. Os dejectos que se instalam nas minhas botas e pela barriga das pernas acima servem de tempero. Sou o aperitivo para esta criatura que hoje decidiu me escolher como vítima. Adiante. Invado uma congosta de chão resvaladio. Eu e milhares de metros cúbicos de água. Desembocamos num ardil. Perfeito para quem conhece este dédalo maldito. São três. Já me esperavam. O outro, o perseguidor, desliza poucos segundos depois pelo mesmo sítio que eu escolhera. Sem saída.

Enquanto dois me seguram pelos braços o perseguidor diverte-se a treinar pugilato com o meu ventre afeado. Como se não bastasse as substâncias que por lá passam diariamente a caminho do fígado. De vez em quando ajeita um soco à cara. À primeira vez sinto a cana do nariz partir. À segunda o sangue escorre, misturando-se com o dos lábios rasgados. A distância segura, talvez para não ser interrompido, o quarto elemento perscruta os bolsos do meu casaco e a carteira. Consigo entrever, pelo único olho que ainda não sofreu, tratar-se de um escaravelho. Grande, negro, bestial, de antenas ocultas até ao momento em que descobre aquilo que procurava. Depois de sibilar para os três homens, largam-me. Caio como um objecto inanimado. Um saco. Fico ali, deitado no cimento estalado de um qualquer beco imundo nos subúrbios de Distopia. A chuva cai com mais violência. Do alto de um prédio com telhas inclinadas uma pequena cascata teima em perfurar-me a face. Fico assim, estático, durante o tempo que for preciso.
Passadas umas horas chego a casa, cambaleante. O meu cuspo ainda é vermelho. Nas velhas escadas do prédio ouço o ranger de uma porta que se abre. A velha barata metediça assoma para tentar perceber quem faz tanto alarido a esta hora. Abro a porta, lanço a gabardina para um canto, procuro no balcão da cozinha a garrafa de aguardente de uva que um colega me ofereceu ontem e bebo dois sorvos generosos. Vou até ao quarto e retiro da gaveta da cómoda uma caixa de metal com relevos de cenas bíblicas e incrustações em pedra de jade. Lá dentro está a minha dose diária de heroína, um rolo de folha de alumínio, uma larga variedade de isqueiros e tubos de plástico. Coloco o equivalente a duas doses diárias em pó num quadrado cuidadosamente rasgado do rolo. Queimo, formando uma magnífica bolha cor de caramelo. Fumo cinco ou seis riscos, o suficiente para aliviar a dor, e levanto o auscultador do telefone. Marco um dos números da Sociedade Real de Opiáceos, onde me atende a voz lúgubre do meu chefe, e digo, "tive um problema em Catatonia. Levaram-me o cartão de recenseador". Depois de ouvir uns resmungos e grunhidos o chefe desliga. Hoje ninguém vai dormir naquele Distrito.

Publicado por Tiago Peregrino em 05:41 AM | Comentários (0)

janeiro 08, 2004

Asfixia

Eis um pequeno excerto do último romance de Chuck Palahniuk, "Asfixia". Não sabem quem é? Trabalho de casa urgente: alugar e/ou comprar o DVD de "Clube de Combate", realizado por David Fincher a partir de outra obra do autor.

O texto que se segue é uma edição da Editorial Notícias, com tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa.

Aquelas drogas cosméticas, disse, aqueles estabilizadores de humor e antidepressivos, apenas tratam os sintomas do problema maior.
Cada vício, disse, era simplesmente uma forma de tratar este mesmo problema. Drogas ou alimentação excessiva ou álcool ou sexo, era tudo simplesmente uma forma de encontrar paz. De escapar àquilo que conhecemos. À nossa educação. À nossa dentada na maçã.
A linguagem, disse, era apenas a nossa forma de minimizar a maravilha e a glória do mundo. De desconstruir. De rejeitar. Disse que as pessoas não conseguem lidar com o belo que o mundo é na realidade. Com o facto de não poder ser explicado, nem compreendido.

Publicado por Tiago Peregrino em 03:27 AM | Comentários (0)

janeiro 06, 2004

Pensamento... (7)

O tempo é um mal da humanidade; não é uma invenção humana, é uma prisão humana.

William Burroughs in "O Fantasma de Uma Oportunidade"

Publicado por Tiago Peregrino em 01:51 AM | Comentários (0)