outubro 15, 2003

Indri

William S. Burroughs é uma das principais referências neste espaço de bits. Eis um excerto do seu romance (sim... é um romance) "O Fantasma de Uma Oportunidade".

A edição é da editorial teorema, colecção estórias, tradução de Telma Costa.

MISSION TINHA FUMADO ópio e haxixe e tomado uma droga a que os Índios da América do Sul chamavam yagé. Concluiu que devia haver uma droga especial desta grande ilha onde havia tantas criaturas e plantas que não se encontram noutros sítios. Depois de fazer algumas perguntas, descobriu que existia na realidade uma droga assim: extraía-se de um fungo parasita que cresce apenas em certas plantas espinhosas que existem nas regiões áridas do sul. A droga chamava-se Indri, o que significava "olha ali" na língua nativa. Por cinco florins de ouro obteve um pequeno fornecimento de um nativo amistoso. A droga apresentava-se sob a forma de cristais amarelos-esverdeados. O homem, cujo nome era Babuchi, mostrou-lhe exactamente a quantidade a tomar e preveniu-o contra tomar mais.
- Muitos tomam indri e não vêem nada diferente. Depois tomam mais e vêem diferente a mais.
- Isto é uma droga de dia ou de noite?
- É melhor pela alvorada e pelo crepúsculo.
Mission calculou que faltaria uma hora até o sol se pôr, tempo suficiente para chegar ao seu acampamento da selva.
- Quanto tempo leva a fazer efeito?
- Muito depressa.

Publicado por Tiago Peregrino em 12:58 AM | Comentários (2)

outubro 14, 2003

A Acidez do Pensamento

No piso superior da vivenda senhorial, há muitos anos restaurada, existe um balcão gigantesco. Uma montra de rara beleza paisagística. Sentado na varanda granítica suportada por dois pilares paquidermes, uma aragem acaricia-me o rosto. Mantenho os olhos fechados e deixo a cabeça descair sobre a nuca. Consigo ouvir tudo. Os pulmões recém bombeados. O pipilar de dois pardais em disputa por uma semente, na horta, a uns duzentos metros. Os gorgolões de água expelidos pelo sistema de rega automática. A barroca cheia da nascente que vive nos montes, a poucos quilómetros. Uma nuvem passageira empurrada com doçura. O leve sibilo do vento que irrompe na quelha, onde se separam o gigantesco palheiro, de paredes cinzentas, e o silo, mais alto que a torre da igreja na aldeia. A ladainha da gata preta que manifesta o cio aos demais felinos das redondezas. E de repente tudo se cala.
Sobra apenas o tímido pestanejar que me abre as portas para o azul que ilumina o céu de Verão como um oceano. Quando lentamente regresso a cabeça à posição normal sinto uma leve tontura, e por segundos, talvez micro-segundos, uma sensação agoniante de pânico brutal. Estremeço sem frio, contraio os músculos do peito, abandono o corpo por instantes enquanto procuro um refúgio interior. Mas a droga dita agora as regras. E busca e rebusca aquele pobre bicho que há minutos atrás eu chamaria de alma. Um animal selvagem enjaulado. Um instinto que suplica liberdade. Faço-lhe a vontade e sigo um carreiro. Um entre muitos. Milhares. Milhões. Ou mais. Alguém sabe o significado da palavra "arar"? Julgo passar por uma placa com essa inscrição. Ou seria "rara"? A placa era de cristal ou vidro ou plástico ou alumínio ou madeira. Confuso, eu? Não. Há uma bússola que direcciona isto tudo para um sítio algures entre aquele prisma e aquela frase. Só que o prisma é de cristal ou vidro ou plástico ou alumínio ou madeira. Então escolho a frase. A frase é esta. Esta é a frase. Há aqui uma conjugação de palavras que forma uma frase, sentença que provavelmente levará a um raciocínio. Mas a racionalidade é muito difícil porque há prismas aqui que não deixam. O carreiro divide-se em quarenta e dois, todos num único cruzamento. Desses quarenta e dois alguns derivam para caminhos, canadas, estradas, pistas de aterragem. Faixas e faixas de tráfego intenso mas progressão contínua e ritmada. Carros e aviões e barcos e bicicletas. "Gostas de mulheres?", perguntaram-lhe um dia, ao que ele respondeu, "Não. Prefiro bicicletas". Deve ser do mecanismo, do selim, do pedal, ou daqueles maravilhosos prismas vermelhos que enchem os reflectores de jactos de luzes incandescentes. "Ring! Ring!", e ao longe ouve-se o estraçalhar de pequenas pedras e grãos de areia de encontro às rodas da bicicleta que se aproxima. Quem será? Debruço-me sobre o parapeito com o intuito de investigar, mas o chão lá de baixo chegou aqui acima. Prefiro não sair de onde estou. Descair a cabeça sobre a nuca, fechar os olhos, ouvir tudo, assim me deixe este maldito resquício de ácido.
Publicado por Tiago Peregrino em 05:18 AM | Comentários (0)

outubro 03, 2003

Aviso

Este blog funciona por combustão espontânea de neurónios. Essa combustão é aleatória, caótica, podendo mesmo provocar largos períodos de intermitência criativa. Não se trata de bloqueio. Apenas vontade de tomar drogas ou não.

Publicado por Tiago Peregrino em 01:46 AM | Comentários (3)