No motel da rua Esquerda
Com uma clara e inocente satisfação, soltei um esgar de bizarria. Suzy, boneca de porcelana branca, puta de profissão, vendia também pensamentos. Nada de citações de fulano ou sicrano. Pensamentos genuínos, dos que só ela fora instruída no decurso da sua vida cheia de episódios lacónicos. Senti-os trespassarem as almofadas enxovalhadas entre os nossos corpos. Rumores que saíam da sua boca proibida, que emanavam do suor que lhe escorria pelo ventre, misturado com o perfume barato e exageradamente doce.
O nosso ninho, no meio daqueles lençóis brancos do motel da rua Esquerda, transformara-se num palco de improvisação, uma stand-up comedy da vida real, ou uma jam session de lamentações e querelas aninhadas no mais puro caos. Sempre que Suzy sorria era de sarcasmo, não de prazer ou felicidade. Comecei a questionar o meu saber, aquilo por que alguns investiam em mim como futuro senhor engenheiro doutor das doutas leis dogmáticas.
Depois de algumas lições paguei os préstimos com bonificação, deixei-a sozinha no quarto, e desci as escadas com direcção ao bar de traços art-déco falaciosos. Com dois copos de Jack, ouvi um fantasma ao ouvido que me preconizava a viver com celeridade, não a pensar.
Publicado por Tiago Peregrino em maio 23, 2005 11:25 PM