Distopia (3): Sexo Oral
"Não vás", são as palavras que lhe adivinho nos espirros de baba espumosa e com pedaços consistentes e pegajosos, como gelatina. É difícil saciar sexualmente uma lesma. Os seus lábios vaginais são infinitos, e percorrem de uma ponta à outra a carne invertebrada, húmida, sem qualquer definição rígida e corpórea.
O sexo oral é um exercício linguístico desconforme para um humano. São necessárias em geral duas injecções intravenosas de cocaína na face inferior da língua para que não sinta nada. Assim (e só assim) consigo discorrer as papilas gustativas anestesiadas.
Dizer para que não saia implica mais esforço. Logo, mais droga.
Por detrás de uma mesa de cabeceira que sobreviveu duas guerras e vários bombardeamentos, a lesma retira dois pequenos pacotes envoltos em plástico ruidoso, como os de um supermercado. Cada um não tem mais que um punho de um homem bem constituído de tamanho.
"Preferes branca ou castanha?", vomita-me a lesma com a certeza da minha anuência. "Não sei", respondo. "Talvez as duas". O bicho atira os dois pacotes para o fundo da cama e espera. Sabe que só eu posso preparar o cozinhado com o requinte de um mestre francês. Com as mãos que a natureza não lhe deu, ao contrário daqueles enormes e brancos lábios vaginais.
Publicado por Tiago Peregrino em setembro 23, 2003 03:42 AM